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quarta-feira, 8 de maio de 2013

"Quem está sempre a lamentar-se não pode ser «bom cristão»!" Papa Francisco

O papa afirmou esta terça-feira que quem segue Cristo «é sempre alegre e nunca triste», mesmo quando passa por «tribulações», e acrescentou que quem «continuamente se lamenta» deixa de ser «um bom cristão».
«Ser paciente: esse é o caminho que Jesus também nos ensina a nós, cristãos. Ser paciente... Isto não quer dizer ser triste. Não, não, é outra coisa. Quer dizer suportar, levar sobre as costas o peso das dificuldades, o peso das contradições, o peso das tribulações», acentuou na missa a que presidiu no Vaticano, refere o portal de notícias da Santa Sé.
Essa perseverança exige «maturidade cristã», que não se obtém «de um dia para o outro» mas, «como o bom vinho», requer «toda a vida».
Francisco recordou que muitos mártires foram alegres, como por exemplo os de Nagasaki, no Japão, ajudando-se mutuamente enquanto esperavam «o momento da morte».
De alguns mártires, termo que quer dizer “testemunhas”, dizia-se que «iam para o martírio» como a uma boda, frisou o papa, salientando que esta atitude não é «masoquista» mas que conduz «à estrada de Jesus».
«Quando surgem as dificuldades chegam também muitas tentações. Por exemplo, a lamentação», declarou, realçando que «o silêncio para suportar a cruz não é triste», embora possa ser «muito doloroso».
A pessoa paciente é, a longo termo, «mais jovem»: «Pensemos naqueles anciãos e anciãs na casa de repouso, naqueles que muito suportaram na vida: olhemos os olhos, olhos jovens, têm um espírito jovem e uma juventude renovada», assinalou.
«Não vos contenteis com uma vida medíocre; caminhai decididamente para a santidade», foi o texto publicado esta manhã através da conta do papa na rede social Twitter.
Também esta terça-feira a Santa Sé anunciou o programa da primeira viagem apostólica de Francisco, ao Brasil, de 22 a 29 de julho, no âmbito da Jornada Mundial da Juventude, que decorre no Rio de Janeiro.
A celebração da missa no santuário de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, a reunião com a presidente da República, encontros com bispos e seminaristas e as visitas a uma instituição de toxicodependentes e a um bairro recuperado pelo Governo constituem alguns dos pontos da agenda papal, a par do programa previsto para a Jornada Mundial da Juventude.

Rui Jorge Martins | © SNPC | 08.05.13
http://www.snpcultura.org/quem_esta_sempre_lamentar_se_nao_pode_ser_bom_cristao.html

quinta-feira, 14 de março de 2013

Papa Francisco: perfil de um papa que lê Dostoievski e Borges, ouve muito, fala pouco e faz da pobreza um combate

De acordo com uma informação nunca confirmada nem desmentida pelo próprio, o cardeal Jorge Maria Bergoglio teria recolhido cerca de 40 votos aquando do conclave de 2005, o suficiente para bloquear a eleição de Joseph Ratzinger, antes de deixar entender que não desejava ser eleito.
Oito anos mais tarde tudo mudou: Bergoglio tornou-se o primeiro papa latino-americano e o primeiro Jesuíta. E foi com naturalidade que a sua proximidade com os pobres o fez escolher o nome de Francisco.
Nascido em 1936 em Buenos Aires, numa família modesta de imigrantes italianos cujo pai era funcionário nos caminhos de ferro, Jorge Mario cresceu na escola pública antes de iniciar os estudos de técnico químico. Mais tarde voltou-se para o sacerdócio, amadurecendo a sua vocação no laboratório onde trabalhava. Entra no noviciado da Companhia de Jesus em 1958.
Após a ordenação em 1969 os estudos conduziram-no ao Chile e à Argentina, onde faz a profissão perpétua em 1973, antes de voltar para a Argentina, primeiro como mestre de noviços e depois como responsável máximo (provincial) pelos Jesuítas no país.
Foram anos difíceis, marcados pela ditadura e pelas divisões dos Jesuítas em relação à teologia da libertação. As vocações diminuem. Seis anos mais tarde, preocupado em manter a não politização dos religiosos, deixa uma província pacificada e novas vocações.
Reitor das faculdades jesuítas de teologia e filosofia de Buenos Aires, e pároco na capital argentina desde 1980, parte para a Alemanha em 1986 para terminar a sua tese de doutoramento em Friburgo. Regressa à Argentina como pároco: em Córdoba, 700 km a oeste da capital, junto à serra, depois em Mendoza, perto da fronteira com o Chile.
Em 1992 João Paulo II nomeia-o bispo auxiliar de Buenos Aires, e em 1997 coadjutor da arquidiocese, de que toma posse no ano seguinte, na sequência da morte do cardeal Antonio Quarracino. Dias antes de falecer, o prelado traçava o retrato de Bergoglio: «homem discreto e muito eficaz, fiel à Igreja e muito próximo dos padres e dos católicos».
Asceta e austero, o novo arcebispo ignora a pomposa residência episcopal da capital argentina para viver sozinho num pequeno apartamento perto da catedral e recusa carro com condutor em detrimento do autocarro e do metro.
Apesar da saúde frágil – extraíram-lhe parte do pulmão direito aos 20 anos – leva uma vida ascética e levanta-se às 4h30 da manhã para um dia de trabalho que começa sempre pela demorada leitura de uma imprensa a quem não deu mais que uma entrevista. O novo papa é conhecido por falar pouco mas ouvir muito.
Grande leitor, sobretudo de romances russos, com Dostoievsky à cabeça, e o seu compatriota Borges, aprecia também ópera e é um fervoroso adepto do San Lorenzo, um dos grandes clubes da capital argentina, fundado em 1908 por um padre.
Dos seus anos de pároco em Buenos Aires e na montanha guardou um forte sentido pastoral. Não desdenha confessar regularmente na sua catedral e faz tudo para estar próximo dos seus padres, para quem abriu uma linha telefónica direta. Não é raro vê-lo tomar uma sandes ao pequeno-almoço num restaurante com um dos seus sacerdotes.
Em 2009 não hesitou ir morar num bairro de barracas, em casa de um dos seus padres, então ameaçado de morte pelos traficantes de droga.
Em 2001 foi criado cardeal por João Paulo II. No mesmo ano a sua humildade impressionou os participantes no sínodo sobre o papel do bispo, em que foi relator adjunto, em substituição do cardeal Egan, arcebispo de Nova Iorque, chamado à cidade por causa dos atentados de 11 de setembro.
Tendo feito da pobreza um dos seus combates, este crítico aceso do neoliberalismo e da globalização tornou-se uma autoridade moral incontestável na Argentina e no exterior. Ao ponto de ser hoje, num país onde a oposição política é quase inexistente, a única verdadeira força a opor-se ao regime de Kirchner, de que não cessa de denunciar o autoritarismo.
Em 2005 a imprensa aliada de Kirchner acusou o padre Bergoglio, provincial dos Jesuítas durante a ditadura, de ter denunciado dois dos seus religiosos, que foram presos e torturados. Outros testemunhos, pelo contrário, lembram as energias que despendeu para conseguir a sua libertação.

Nicolas Senèze, In La Croix
 Trad.: rjm 

Novo papa - Francisco (biografia breve)

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Jorge Mario Bergoglio, de 76 anos, jesuíta, foi até agora arcebispo de Buenos Aires; consta-se que no último conclave terá sido o mais votado depois de Ratzinger (Bento XVI).
O 266.º papa nasceu em Buenos Aires a 17 de dezembro de 1936. Licenciou-se como técnico químico e mais tarde entrou no seminário.
A 11 de março de 1958 entrou no noviciado da Companhia de Jesus (Jesuítas). Estudou no Chile e em 1963, de regresso à capital argentina, obteve a licenciatura em Filosofia.
De 1964 a 1966 foi professor de literatura e psicologia.
Entre 1967 e 1970 estudou e concluiu o curso de teologia.
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Foi ordenado padre a 13 de dezembro de 1969, a poucos dias de fazer 33 anos.
A 22 de abril de 1973 fez a profissão definitiva junto dos Jesuítas.
Foi mestre de noviços, professor na Faculdade de Teologia, consultor provincial e reitor de colégio.
A 31 de julho de 1973 foi eleito responsável máximo (provincial) da Companhia de Jesus na Argentina, cargo que desempenhou durante seis anos.
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De 1980 a 1986 foi reitor da Faculdade de Filosofia e Teologia de S. José, em S. Miguel.
Em março de 1986 foi para a Alemanha para terminar o doutoramento.
A 20 de maio de 1992 João Paulo II nomeou-o bispo auxiliar de Buenos Aires. Recebeu a ordenação episcopal a 27 de junho na catedral local.
Foi nomeado arcebispo coadjutor de Buenos Aires a 3 de junho de 1997. A 28 de fevereiro de 1998 sucede na arquidiocese ao cardeal Quarracino.
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É autor dos livros "Meditações para religiosos" (1982), "Reflexões sobre a vida apostólica" (1986) e "Reflexões de esperança" (1992).
É o Ordinário para os fiéis de rito oriental residentes na Argentina que não podem contar com um Ordinário do seu rito.
É Grande Chanceler da Universidade Católica Argentina.
Foi relator geral adjunto ao Sínodo dos Bispos de 2001, no Vaticano.
De novembro de 2005 a novembro de 2011 foipresidente da Conferência Episcopal Argentina.
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Foi criado cardeal por João Paulo II no consistório de 21 de fevereiro de 2001.
É membro das seguintes congregações da Cúria Romana: Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos; Clero; Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica.
É membro do Pontifício Conselho da Família e da Pontifícia Comissão para a América Latina. 

Rui Jorge Martins
© SNPC | 13.03.13

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Ano da Fé - Introdução (Audiência Geral de Bento XVI)



PAPA BENTO XVI | AUDIÊNCIA GERAL
Praça de São Pedro, Quarta-feira, 17 de Outubro de 2012
Queridos irmãos e irmãs, 
hoje gostaria de introduzir o novo ciclo de catequeses, que se desenvolve ao longo de todo o Ano da fé, recém-iniciado, e que interrompe, durante este período, o ciclo dedicado à escola da oração. Mediante a Carta Apostólica Porta Fidei proclamei este Ano especial, precisamente para que a Igreja renove o entusiasmo de crer em Jesus Cristo, único Salvador do mundo, reavive a alegria de percorrer o caminho que nos indicou e testemunhe de modo concreto a força transformadora da fé.
A celebração do cinquentenário da inauguração do Concílio Vaticano II é uma ocasião importante para voltar para Deus, a fim de aprofundar e viver com maior coragem a própria fé, para fortalecer a pertença à Igreja, «mestra em humanidade» que, através do anúncio da Palavra, da celebração dos Sacramentos e das obras de caridade, nos orienta para encontrar e conhecer Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Trata-se do encontro não com uma ideia, nem com um projeto de vida, mas com uma Pessoa viva que nos transforma em profundidade a nós mesmos, revelando-nos a nossa verdadeira identidade de filhos de Deus. O encontro com Cristo renova os nossos relacionamentos humanos, orientando-os no dia-a-dia para uma maior solidariedade e fraternidade, na lógica do amor. Ter fé no Senhor não é algo que interessa unicamente à nossa inteligência, ao campo do saber intelectual, mas é uma mudança que compromete a vida, a totalidade do nosso ser: sentimento, coração, inteligência, vontade, corporeidade, emoções e relacionamentos humanos. Com a fé muda verdadeiramente tudo em nós e para nós, e revela-se com clareza o nosso destino futuro, a verdade da nossa vocação no interior da história, o sentido da vida, o gosto de sermos peregrinos rumo à Pátria celeste.
Mas perguntemo-nos: a fé é verdadeiramente a força transformadora da nossa vida, na minha vida? Ou então é apenas um dos elementos que fazem parte da existência, sem ser aquele determinante, que a abrange totalmente? Com as catequeses deste Ano da fé gostaríamos de percorrer um caminho para fortalecer ou reencontrar a alegria da fé, compreendendo que ela não é algo de alheio, separado da vida concreta, mas é a sua alma. A fé num Deus que é amor, e que se fez próximo do homem, encarnando e doando-se a si mesmo na cruz para nos salvar e reabrir as portas do Céu, indica de modo luminoso que a plenitude do homem consiste unicamente no amor. Hoje é necessário reiterá-lo com clareza, enquanto as transformações culturais em curso mostram com frequência tantas formas de barbárie, que passam sob o sinal de «conquistas de civilização»: a fé afirma que não há humanidade autêntica, a não ser nos lugares, nos gestos, nos tempos e nas formas como o homem é animado pelo amor que vem de Deus, se expressa como dom, se manifesta em relações ricas de amor, de compaixão, de atenção e de serviço abnegado ao próximo. Onde existe domínio, posse, exploração, mercantilização do outro por egoísmo próprio, onde há arrogância do eu, fechado em si mesmo, o homem torna-se pobre, degradado, desfigurado. A fé cristã, laboriosa na caridade e forte na esperança, não limita mas humaniza a vida, aliás, torna-a plenamente humana.
A fé é o acolhimento desta mensagem transformadora na nossa vida, o acolhimento da revelação de Deus, que nos faz conhecer quem Ele é, como age, quais são os seus desígnios para nós. Sem dúvida, o mistério de Deus permanece sempre além dos nossos conceitos e da nossa razão, dos nossos ritos e das nossas preces. Todavia, com a revelação é o próprio Deus quem se autocomunica, se descreve, se torna acessível. E nós tornamo-nos capazes de ouvir a sua Palavra e de receber a sua verdade. Eis, pois, a maravilha da fé: Deus, no seu amor, cria em nós - através da obra do Espírito Santo - as condições adequadas para que possamos reconhecer a sua Palavra. O próprio Deus, na sua vontade de se manifestar, de entrar em contacto connosco, de se fazer presente na nossa história, torna-nos capazes de o ouvir e acolher. São Paulo exprime-o assim, com alegria e reconhecimento: «Nós não cessamos de dar graças a Deus, porque recebestes a palavra de Deus, que de nós ouvistes, e porque a acolhestes não como palavra de homens, mas como aquilo que realmente é, palavra de Deus, que age eficazmente em vós, fiéis» (1 Ts 2, 13).
Deus revelou-se mediante palavras e obras em toda uma longa história de amizade com o homem, que culmina na Encarnação do Filho de Deus e no seu Mistério de Morte e Ressurreição. Deus não só se revelou na história de um povo, nem falou só por meio dos Profetas, mas atravessou o seu Céu para entrar na terra dos homens como homem, para que pudéssemos encontrá-lo e ouvi-lo. E de Jerusalém o anúncio do Evangelho da salvação propagou-se até aos confins da terra. A Igreja, nascida do lado de Cristo, tornou-se portadora de uma esperança nova e sólida: Jesus de Nazaré, crucificado e ressuscitado, Salvador do mundo, que está sentado à direita do Pai e é Juiz dos vivos e dos mortos. Este é o kerigma, o anúncio central e impetuoso da fé. Mas desde o início levantou o problema da «regra da fé», ou seja, da fidelidade dos crentes à verdade do Evangelho, na qual permanecer firmes, à verdade salvífica sobre Deus e sobre o homem, que se deve conservar e transmitir. São Paulo escreve: «Recebereis a salvação, se o mantiverdes [o Evangelho] como vo-lo anunciei. Caso contrário, em vão teríeis abraçado a fé»(1 Cor 15, 2).
Mas onde encontramos a fórmula essencial da fé? Onde encontramos as verdades que nos foram fielmente transmitidas e que constituem a luz para a nossa vida diária? A resposta é simples: no Credo, na Profissão de Fé, ou Símbolo da Fé, nós relacionamo-nos com o acontecimento originário da Pessoa e da História de Jesus de Nazaré; torna-se concreto quanto o Apóstolo das nações dizia aos cristãos de Corinto: «Transmiti-vos primeiramente o que eu mesmo tinha recebido: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia» (1 Cor 15, 3-4).
Ainda hoje temos necessidade que o Credo seja melhor conhecido, compreendido e pregado. Sobretudo, é importante que o Credo seja, por assim dizer, «reconhecido». Com efeito, conhecer poderia ser algo simplesmente intelectual, enquanto «reconhecer» quer significar a necessidade de descobrir o vínculo profundo entre as verdades que professamos no Credo e a nossa existência quotidiana, para que estas verdades sejam deveras e concretamente - como sempre foram - luz para os passos do nosso viver, água que rega a aridez do nosso caminho, vida que vence certos desertos da vida contemporânea. No Credo insere-se a vida moral do cristão, que nele encontra o seu fundamento e a sua justificação.
Não é por acaso que o Beato João Paulo II quis que o Catecismo da Igreja Católica, norma segura para o ensinamento da fé e fonte certa para uma catequese renovada, se inspirasse no Credo. Tratava-se de confirmar e conservar este núcleo fulcral das verdades da fé, comunicando-o numa linguagem mais inteligível aos homens do nosso tempo, a nós. É um dever da Igreja transmitir a fé, comunicar o Evangelho, a fim de que as verdades cristãs sejam luz das novas transformações culturais, e os cristãos se tornem capazes de explicar a razão da sua esperança (cf. 1 Pd 3, 14). Hoje, vivemos numa sociedade profundamente transformada, também em relação a um passado recente, e em movimento contínuo. Os processos da secularização e de uma difundida mentalidade niilista, em que tudo é relativo, marcaram profundamente a mentalidade comum. Assim, a vida é muitas vezes levada com superficialidade, sem ideais claros nem esperanças sólidas, no contexto de vínculos sociais e familiares fluidos, provisórios. Sobretudo as novas gerações não são educadas para a busca da verdade e do sentido profundo da existência, que ultrapasse o contingente, para a estabilidade dos afetos, para a confiança. Ao contrário, o relativismo leva a não ter pontos firmes, suspeita e volubilidade provocam ruturas nos relacionamentos humanos, enquanto a vida é vivida com experiências que duram pouco, sem assunção de responsabilidade. Se o individualismo e o relativismo parecem dominar o espírito de muitos contemporâneos, não se pode dizer que os crentes permanecem totalmente imunes a estes perigos, que devemos enfrentar na transmissão da fé. A sondagem realizada em todos os Continentes, em vista da celebração do Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização, evidenciou alguns: uma fé vivida de modo passivo e privado, a rejeição da educação para a fé, a rutura entre vida e fé.
Muitas vezes o cristão não conhece nem sequer o núcleo central da própria fé católica, do Credo, de modo a deixar espaço a um certo sincretismo e relativismo religioso, sem clareza sobre as verdades nas quais crer e sobre a singularidade salvífica do cristianismo. Hoje não está muito distante o risco de construir, por assim dizer, uma religião personalizada. Ao contrário, temos que voltar para Deus, para o Deus de Jesus Cristo, temos que redescobrir a mensagem do Evangelho, fazê-lo entrar de modo mais profundo nas nossas consciências e na vida quotidiana.
Nas catequeses deste Ano da fé gostaria de oferecer uma ajuda para percorrer este caminho, para retomar e aprofundar as verdades centrais da fé sobre Deus, o homem, a Igreja e toda a realidade social e cósmica, meditando e ponderando sobre as afirmações do Credo. E gostaria que fosse clara que estes conteúdos ou verdades da fé (fides quae) se relacionam diretamente com a nossa vida; exigem uma conversão da existência, que dá vida a um novo modo de crer em Deus (fides qua). Conhecer Deus, encontrá-lo, aprofundar os traços da sua Face põe em jogo a nossa vida, pois Ele entra nos dinamismos profundos do ser humano.
Possa o caminho que percorreremos este Ano fazer-nos crescer todos na fé e no amor a Cristo, para que aprendamos a viver, nas opções e gestos quotidianos, a vida boa e bela do Evangelho. Obrigado!

domingo, 18 de novembro de 2012

Átrio dos Gentios: Gianfranco Ravasi e João Lobo Antunes

Está aberta a porta do diálogo e da partilha da vida.
Belo encontro onde se reconhece a unidade do desejo mais profundo de cada um.
O valor da vida e vida em valor não é mistério de alguns. É partilha da humanidade. Ousemos ouvir este momento do Átrio do Gentios.



sábado, 17 de novembro de 2012

Uma oração para católicos frustrados

Essa é a oração de James Martin, padre jesuíta e editor de cultura da revista semanal America, fundada em 1909 pelos jesuítas dos EUA. É formado em economia pela Wharton School of Business, da Universidade da Pensilvânia, em filosofia pela Universidade Loyola, de Chicago e em teologia pela Weston Jesuit School of Theology, de Cambridge, onde também fez seu mestrado e doutorado em Teologia.

A oração foi publicada no sítio da revista America, 13/08/2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Veja abaixo a oração em vídeo, rezada pelo próprio Pe. Martin, em inglês.

Eis o texto.

Querido Deus, às vezes eu fico muito frustrado com a tua Igreja.

Eu sei que não estou sozinho. Muitas pessoas que amam a tua Igreja se sentem frustradas com o corpo de Cristo na terra. Padres e diáconos, e irmãos e irmãs podem se sentir frustrados também. E eu aposto que até mesmo bispos e papas se sentem frustrados. Nós nos preocupamos, nos inquietamos, nos incomodamos, nos irritamos e às vezes nos escandalizamos porque a tua instituição divina, nossa casa, está repleta de seres humanos que são pecadores. Assim como eu.

Mas eu fico frustrado acima de tudo quando sinto que há coisas que precisam ser mudadas, e eu não tenho o poder para mudá-las.

Por isso, eu preciso da tua ajuda, Deus.

Ajuda-me a lembrar que Jesus prometeu que estaria conosco até o fim dos tempos e que a sua Igreja é sempre guiada pelo Espírito Santo, mesmo que para mim seja difícil ver. Às vezes, a mudança acontece de repente, e o Espírito nos surpreende, mas muitas vezes isso acontece lentamente na Igreja. No teu tempo, não no meu. Ajuda-me a saber que as sementes que eu planto com amor no solo da tua Igreja irão florescer um dia. Por isso, dá-me paciência.

Ajuda-me a entender que nunca existiu um momento em que não houve discussões ou disputas dentro da tua Igreja. Discussões remontam até Pedro e Paulo, que debatiam entre si. E nunca existiu um momento em que não houve pecado entre os membros da tua Igreja. Esse tipo de pecado remonta a Pedro, que negou Jesus durante a sua paixão. Por que a Igreja de hoje seria diferente do que era para as pessoas que conheceram Jesus na terra? Dá-me sabedoria.

Ajuda-me a confiar na Ressurreição. O Cristo ressuscitado nos lembra que sempre há a esperança de algo novo. A morte nunca é a última palavra para nós. Nem o desespero. E ajuda-me a lembrar que, quando o Cristo ressuscitado apareceu aos seus discípulos, ele suportou as feridas da sua crucificação. Como Cristo, a Igreja está sempre ferida, mas é sempre uma portadora de graça. Dá-me esperança.

Ajuda-me a acreditar que o teu Espírito pode fazer qualquer coisa: elevar santos quando nós mais precisamos deles, amolecer os corações quando eles parecem endurecidos, abrir as mentes quando elas parecem fechadas, inspirar confiança quando tudo parece perdido, nos ajudar a fazer o que parecia impossível até ser feito. Esse é o mesmo Espírito que converteu Paulo, que inspirou Agostinho, que chamou Francisco de Assis, que incentivou Catarina de Sena, que consolou Inácio de Loyola, que confortou Teresa de Lisieux, que animou João XXIII, que acompanhou Teresa de Calcutá, que fortaleceu Dorothy Day e que encorajou João Paulo. É o mesmo Espírito que está connosco hoje, e o teu Espírito não perdeu nada do seu poder. Dá-me fé.

Ajuda-me a lembrar de todos os seus santos. Muitos deles passaram por coisas muito piores do que eu. Eles ficaram frustrados com a tua Igreja às vezes, lutaram com ela e ocasionalmente foram perseguidos por ela. Joana D'Arc foi queimada na fogueira pelas autoridades eclesiásticas. Inácio de Loyola foi jogado na prisão pela Inquisição. Mary Mackillop foi excomungada. Se eles puderam confiar na tua Igreja em meio a essas dificuldades, eu também posso. Dá-me coragem.

Ajuda-me a ser pacífico quando as pessoas me dizem que eu não pertenço à Igreja, que eu sou um herege ao tentar fazer as coisas melhor, ou que eu não sou um bom católico. Eu sei que fui batizado. Tu me chamaste pelo nome para estar em tua Igreja, Deus. Enquanto eu respirar, ajuda-me a lembrar como as águas sagradas do batismo me acolheram em tua sagrada família de santos e pecadores. Que a voz que me chamou à tua Igreja seja o que eu ouço quando outras vozes me dizem que eu não sou bem-vindo na Igreja. Dá-me paz.

Acima de tudo, ajuda-me a colocar toda a minha esperança no teu Filho. Minha fé está em Jesus Cristo. Dá-me apenas o teu amor e a tua graça. Isso me basta.

Ajuda-me, Deus, e ajuda a tua Igreja. Amém.


In http://www.ihu.unisinos.br

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Átrio dos Gentios em Portugal sobre o valor da Vida

Nos dias 16 e 17 de Novembro de 2012, em Guimarães e em Braga – capitais europeias da cultura e da juventude, respectivamente, no ano de 2012 – vai fazer-se uma sessão do Átrio dos Gentios, estrutura criada pelo Pontifício Conselho da Cultura e inaugurada em Paris nos dias 24 e 25 de Março de 2011.  
Desde então, o Átrio dos Gentios vai-se alargando a muitas outras cidades da Europa: de Paris a Palermo, passando por Florença, Assis, Bucareste, Tirana, Barcelona e Estocolmo. Nos dias 5 e 6 de outubro próximo chegará novamente a Assis e de Assis estender-se-á, então, a Portugal onde, desde o final de Janeiro de 2012, a Comissão Organizadora, que tenho a honra e o privilégio de coordenar, trabalha na preparação do terreno para a construção do Átrio dos Gentios.
O Átrio dos Gentios, em Portugal como pelo mundo fora, pretende ser lugar de encontro e de diálogo entre crentes, não crentes, agnósticos, gentes de diferentes formações científicas, culturais e políticas, e diferentes sensibilidades e confissões religiosas. O Átrio em Guimarães e em Braga abre-se para o encontro e o diálogo à volta de um tema que, para além das crenças, solicita todos à investigação, à reflexão, ao diálogo, ao contraste, à discussão e à meditação: o valor da vida.
O encontro no Átrio dos Gentios é convocado para pensar a Vida nas suas revelações e nos seus mistérios e para pensar a forma como os humanos, neste início do terceiro milénio, nos relacionamos com ela: porque existimos e somos o que somos? Que caminhos nos trouxeram até aqui? O que é e o que significa esta consciência de presença no universo, esta consciência de si, este sentimento de si e do outro? O que é este instinto visceral de sobrevivência que traz nas entranhas algo parecido com esperança e determinação para superar os fluxos de morte que de nós se abeiram e nos envolvem no quotidiano? E a fragilidade da vida? O que nos dizem as religiões e os humanismos, a ciência e a política, a filosofia e a história, o desporto e a teologia, a literatura e a espiritualidade sobre o valor e o sentido da vida de cada ser humano?
Num tempo em que estas questões são sistematicamente excluídas da agenda dos interesses públicos e da actualidade, insistir na ideia de que nada é demais, nenhum recurso, nenhuma ideia, para pensar a vida em geral, nas suas inumeráveis concretizações, e a vida humana, em particular, é um dever cívico, um dever de humanidade.
Não há mais lugar para entrincheiramentos em dogmatismos científicos ou religiosos castradores.
No fundo, o que a todos nos move, pelos caminhos da ciência, da fé, da dúvida e da resistência é a busca incessante do significado científico, teológico, ecológico, político, humano, pessoal e íntimo da vida. Seja seguindo pelos caminhos da ciência, seja pelos caminhos da fé, seja pelos caminhos da dúvida e da descrença, seja pela luz, seja pela noite, seja pelos cruzamentos quotidianos de uns e de outros, somos todos peregrinos fascinados pela “extravagância de ser” neste universo em que vivemos.

 Para mais informação consulte: http://www.atriodosgentios.pt/

Programa

O Valor da vida

 

Sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Guimarães – Grande Auditório da Universidade do Minho (Azurém)

18:00 Sessão inaugural
Fundação Orquestra Estúdio de Guimarães e coro da licenciatura em música da Universidade do Minho
Conferência inaugural: Identidade e sentido da vida de um povo
Marcelo Rebelo de Sousa
Apresentação – Maria João Avillez

20:00 Jantar

21:30 O valor e o sentido da vida de cada ser humano
Gianfranco Ravasi
João Lobo Antunes
Apresentação – Maria João Avillez


Sábado, 17 de novembro 2012

Braga
Estilo de vida e salvaguarda do universo


Museu Pio XII
10:00 – Inauguração da exposição de pintura – CRER: AS IMAGENS DE UMA AVENTURA – de Isabel Nunes
 Auditório Vita
11:00 – Job ou a tortura pelos amigos de Fabrice Hadjadj. Encenação – Helena Carneiro
12:00 – Apresentação do livro Mostrar Cristo ao Mundo – cinco anos de pontificado de Bento XVI.


14:30 – Workshops em simultâneo

Salão Medieval da Universidade do Minho
Narrar a vida torna-a mais preciosa? – Literatura e espiritualidade
Ana Luísa Amaral
Tolentino Mendonça
Valter Hugo Mãe
Moderação – Anabela Mota Ribeiro

Auditório Vita
O sentido da vida e o sofrimento humano – religião e humanismos
Isabel Galriça Neto
Isabel Jonet
Fernando Nobre
Paulo Moura
Moderação – Paulo Rocha

Aula Magna da Faculdade de Filosofia
O valor da vida e o sentido do universo – filosofia e ecologia
Assunção Cristas
Henrique Leitão
José Rivas
Moderação – Luís Mah


16:30 – Workshops em simultâneo

Salão medieval da Universidade do Minho
 Vida pessoal e vida coletiva na identidade cultural – psicologia e história
Aldina Duarte
Carlos Amaral Dias
Vasco Graça Moura
Moderação: Jorge Barreto Xavier

Auditório Vita
Genética e bioética – ciência e política
Elena Postigo Solana
Maria de Sousa
Moderação – Ana Sofia Carvalho
  
Aula Magna da Faculdade de Filosofia
Valor do corpo e consciência espiritual – desporto e teologia
Alexandre Mestre
João Duque
Olga Roriz
Moderação – João Aguiar

19:00 – Orquestra Geração e Jovens Cantores de Guimarães
Auditório Vita

21:30 – Missa Brevis de João Gil pelos CANTATE
Sé Catedral