Mostrar mensagens com a etiqueta Liberdade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Liberdade. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Ano da Fé - Como falar de Deus? (Audiência Geral de Bento XVI)

PAPA BENTO XVI | AUDIÊNCIA GERAL
Praça de São Pedro, Quarta-feira, 28 de Novembro de 2012

Queridos irmãos e irmãs,


A interrogação central que hoje levantamos é a seguinte: como falar de Deus no nosso tempo? Como comunicar o Evangelho, para abrir caminhos à sua verdade salvífica nos corações muitas vezes fechados dos nossos contemporâneos e nas suas mentes por vezes distraídas pelas numerosas luzes da sociedade? O próprio Jesus, dizem-nos os evangelistas, ao anunciar o Reino de Deus, interrogou-se acerca disto: «A quem compararemos o Reino de Deus? Ou com que parábola o representaremos?» (Mc 4, 30). Como falar de Deus hoje? A primeira resposta é que nós podemos falar de Deus, porque Ele falou connosco. Portanto, a primeira condição para falar de Deus é a escuta daquilo que o próprio Deus disse. Deus falou connosco! Por conseguinte, Deus não é uma hipótese distante sobre a origem do mundo; não é uma inteligência matemática muito distante de nós. Deus interessa-se por nós, ama-nos, entrou pessoalmente na realidade da nossa história e comunicou-se a si mesmo a ponto de se encarnar. Portanto, Deus é uma realidade da nossa vida, é tão grande que tem tempo também para nós, preocupa-se connosco. Em Jesus de Nazaré nós encontramos o rosto de Deus, que desceu do seu Céu para se imergir no mundo dos homens, no nosso mundo, e para ensinar a «arte de viver», o caminho da felicidade; para nos libertar do pecado e para nos tornar filhos de Deus (cf. Ef 1, 5; Rm 8, 14). Jesus veio para nos salvar e para nos mostrar a vida boa do Evangelho.

domingo, 16 de dezembro de 2012

A humanidade do nosso tempo ainda espera um Salvador?


Na Noite de Natal deter-nos-emos, mais uma vez, diante do presépio, para contemplar estupefactos o "Verbo feito carne". Sentimentos de alegria e de gratidão, como todos os anos, renovar-se-ão no nosso coração ao ouvir as melodias do Natal, que cantam em tantas línguas o mesmo extraordinário prodígio. O Criador do universo veio por amor habitar entre os homens. (...)
O mundo com as suas angústias diz a iminência de algo que o renovará, e deseja com uma expectativa impaciente que o esplendor de um sol mais resplandecente ilumine as suas trevas... Esta expectativa da criação persuade-nos também a nós a esperar o nascimento de Cristo, novo Sol" (Disc. 61a, 1-3). Portanto, a mesma criação nos leva a descobrir e a reconhecer Aquele que há de vir.
Mas a pergunta é: a humanidade do nosso tempo espera ainda um Salvador? Tem-se a impressão de que muitos consideram Deus fora dos seus interesses. Aparentemente não precisam d'Ele; vivem como se Ele não existisse e, ainda pior, como se fosse um "obstáculo" a superar para se realizarem a si mesmos. Também entre os crentes temos a certeza há quem se deixa atrair por quimeras aliciantes e distrair por doutrinas desviantes que propõem atalhos ilusórios para obter a felicidade.
Contudo, mesmo com as suas contradições, angústias e dramas, e talvez precisamente para eles, hoje a humanidade procura um caminho de renovação, de salvação, procura um Salvador e aguarda, por vezes inconscientemente, o advento do Salvador que renova o mundo e a nossa vida, o advento de Cristo, o único verdadeiro Redentor do homem e do homem todo. Sem dúvida, falsos profetas continuam a propor uma salvação a "baixo preço", que termina sempre por gerar violentas desilusões.
Precisamente a história dos últimos cinquenta anos demonstra esta busca de um Salvador a "baixo preço" e evidencia todas as desilusões a que elas deram origem. É tarefa dos cristãos difundir, com o testemunho da vida, a verdade do Natal, que Cristo traz a cada homem e mulher de boa vontade. Nascendo na pobreza do presépio, Jesus vem oferecer a todos aquela alegria e paz, as únicas que podem colmatar a expectativa do ânimo humano.
Mas como devemos preparar-nos para abrir o coração ao Senhor que vem? A atitude espiritual da expectativa vigilante e orante permanece a característica fundamental do cristão neste tempo de Advento. É a atitude que distingue os protagonistas de então: Zacarias e Isabel, os pastores, os Magos, o povo simples e humilde. Sobretudo a expectativa de Maria e de José! Eles, mais do que outrém, viveram em primeira pessoa os afãs e a trepidação pelo Menino que devia nascer.
Não é difícil imaginar como transcorreram os últimos dias, na expectativa de abraçar o recém-nascido. A sua atitude seja a nossa, queridos irmãos e irmãs! A este propósito, ouvimos a exortação de São Máximo, Bispo de Turim: «Enquanto estamos para acolher o Natal do Senhor, revistamo-nos com vestes nítidas, sem mancha. Falo da veste da alma, não da do corpo. Vistamo-nos não com vestes de seda, mas com obras santas! As vestes vistosas podem cobrir os membros mas não embelezam a consciência».
Nascendo entre nós, que o Menino Jesus não nos encontre distraídos ou comprometidos simplesmente a embelezar com iluminações as nossas casas. Ao contrário, preparemos na nossa alma e nas nossas famílias uma habitação digna onde Ele se sinta acolhido com fé e amor. 

Papa Bento XVI

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Depois do encontro "Em que crê quem não crê? E quem crê?"



Tal como estava anunciado, aconteceu, no passado dia 5, no Auditório da Fundação Cupertino de Miranda, um serão de diálogo sobre a ciência, o desconhecido, a esperança, a dúvida, o não-saber, a fé em Jesus Cristo… Os intervenientes convidados, Professor Agostinho Marques, Drª Goreti Azevedo e Padre Carlos Carneiro, principiaram por partilhar as suas concepções de Deus, do homem, da vida, da realidade, a que se seguiu, com a coordenação de Drª Luisa Alvim, moderadora do serão, um diálogo aberto entre os três intervenientes. As questões levantadas foram de enorme riqueza e a tónica dominante foi a da importância de uma busca humilde, sempre inacabada… Os valores comumente ressaltados foram os da abertura aos outros, solidariedade, partilha, perdão e compaixão, tendo o Professor Agostinho Marques afirmado que, para si – agnóstico – a maior questão não é acreditar ou não em Deus, mas na vida intervir e ter uma acção concreta no mundo. E – afirmou - uma das maiores preocupações da Faculdade de Medicina do Porto, de que é actual director, é ensinar aos alunos “a compaixão, a humanidade”.
O Padre Carlos Carneiro afirmou que a sua decisão de ser católico se prende com o facto de ter encontrado em Jesus Cristo a mais alta qualidade da existência humana e que a sua fé é uma relação que o obriga a por em causa, continuamente, a própria fé. É um crente imperfeito, à procura… A fé em Deus - disse - não é, não pode ser, só uma relação de intimidade, mas uma prática, uma ação que se expressa no viver para os outros.
Para a Drª Goreti Azevedo, os princípios e valores que norteiam a cultura cristã são os seus próprios valores. Contudo, não acredita em Deus porque não consegue estabelecer relação com Ele. Não encontra qualquer incompatibilidade entre o avanço da Ciência e a crença em Deus. Faltam, parece-lhe, comunidades cristãs que testemunhem, de forma convincente, aquilo em que acreditam!
O diálogo, entretanto, aberto a toda a assembleia, foi infelizmente curto e teve que ser interrompido porque as horas foram passando e o dia seguinte era dia de trabalho para a maioria dos presentes.  

Maria Helena Aguiar





sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O que a vaca e o burro (dentro ou fora) do presépio dizem sobre a espiritualidade contemporânea

Surpreende o facto de que em certos meios de comunicação o conteúdo central do livro de Bento XVI, A infância de Jesus, foi posto em segundo plano em relação à questão da presença ou não do boi e do burro na gruta de Belém. Desviando a atenção do ponto focal da obra que, como o próprio Papa sublinhou, não é um ato de ensinamento pontifício, mas a expressão da sua pesquisa pessoal e teológica sobre o rosto do Senhor.
Talvez, além do aspeto anedótico, a confusão mediática seja um sinal da secularização e da desertificação espiritual que Bento XVI identifica como o problema principal que a Igreja deve enfrentar no nosso tempo. E um dos sintomas mais dolorosos é a marginalização silenciosa e transversal de Deus da vida pessoal e pública.
Afirma-o também o arcebispo e teólogo espanhol Fernando Sebastián na sua última obra La fe que nos salva, quando afirma que «o problema número um da Igreja de hoje consiste em ajudar as pessoas a crer». Com efeito, na sua opinião, «ontem o ateísmo subsistia na mente de alguns filósofos. Hoje, temo-lo em casa, nos primos, nos sobrinhos e nos vizinhos. O ateísmo envolve todos nós, e o viver como se Deus não existisse tornou-se uma espécie de ateísmo por omissão». Remediar a esta situação e voltar a pôr Deus no centro é o que Bento XVI está a fazer.
Para o Papa, este compromisso é necessário também na Igreja, porque «o desafio de uma mentalidade fechada ao transcendente — disse a 25 de novembro de 2011 — obriga também os próprios cristãos a voltar de modo mais decidido à centralidade de Deus (…) Por isso, não menos urgente é propor de novo a questão de Deus, inclusive no próprio tecido eclesial».
A este compromisso de voltar a Deus, Bento XVI dedica há mais de um mês as suas catequeses de quarta-feira. Como aconteceu no passado, nas lições de teologia que o professor Joseph Ratzinger dava aos estudantes universitários de Tübingen — reunidas há mais de quarenta anos no volume Einführung in das Christentum («Introdução ao Cristianismo» — assim no atual ciclo de catequeses o Papa explicou que a «fé não é simples assentimento intelectual do homem a verdades particulares sobre Deus; é um gesto mediante o qual me confio livremente a um Deus que é Pai e que me ama; é adesão a um “Tu” que me dá esperança e confiança. Sem dúvida, esta adesão a Deus não está isenta de conteúdos: com ela estamos conscientes de que o próprio Deus nos é indicado em Cristo, mostrou o seu rosto e fez-se realmente próximo de cada um de nós» (24 de outubro de 2012).
Esta é a proposta fundamental do Ano da Fé, que o Pontífice proclamou para reavivar na Igreja a alegria de crer através da recuperação do primado de Deus, pois «se Deus perder a centralidade, o homem perde o seu justo lugar, e não encontra mais a sua colocação na criação, nas relações com os outros» (14 de novembro de 2012). Sem Deus, tudo de volta contra o homem.
Por sua vez o homem, que Bento XVI define «mendigo de Deus», traz em si mesmo «um desejo misterioso de Deus» (7 de novembro de 2012), que não pode permanecer uma paixão inútil, mas deve transformar-se num anseio profundo, alimentado pelas alegrias autênticas e pelo desejo de plenitude.
Sem dúvida, a resposta do homem é essencialmente resposta a Deus: mas, também e precisamente por isso, é resposta aos outros, através da obra de evangelização, que por sua vez é comunicação com Deus. «Falar de Deus — recorda o Papa — é comunicar, com força e simplicidade, com a palavra e a vida, aquilo que é essencial: o Deus de Jesus Cristo, aquele Deus que nos mostrou um amor tão grande, a ponto de se encarnar, morrer e ressuscitar por nós; aquele Deus que pede para O seguir e para se deixar transformar pelo seu amor imenso, para renovar a nossa vida e os nossos relacionamentos; aquele Deus que nos concedeu a Igreja, para caminharmos juntos e, através da Palavra e dos Sacramentos, renovarmos toda a Cidade dos homens, a fim de que ela possa tornar-se Cidade de Deus» (28 de novembro de 2012).
As de Bento XVI são catequeses do essencial, para conduzir a Deus os homens e as mulheres do nosso tempo.

José María Gil Tamayo
Título original: O meu vizinho ateu
In L'Osservatore Romano, 30.11.2012

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Ano da Fé - Introdução (Audiência Geral de Bento XVI)



PAPA BENTO XVI | AUDIÊNCIA GERAL
Praça de São Pedro, Quarta-feira, 17 de Outubro de 2012
Queridos irmãos e irmãs, 
hoje gostaria de introduzir o novo ciclo de catequeses, que se desenvolve ao longo de todo o Ano da fé, recém-iniciado, e que interrompe, durante este período, o ciclo dedicado à escola da oração. Mediante a Carta Apostólica Porta Fidei proclamei este Ano especial, precisamente para que a Igreja renove o entusiasmo de crer em Jesus Cristo, único Salvador do mundo, reavive a alegria de percorrer o caminho que nos indicou e testemunhe de modo concreto a força transformadora da fé.
A celebração do cinquentenário da inauguração do Concílio Vaticano II é uma ocasião importante para voltar para Deus, a fim de aprofundar e viver com maior coragem a própria fé, para fortalecer a pertença à Igreja, «mestra em humanidade» que, através do anúncio da Palavra, da celebração dos Sacramentos e das obras de caridade, nos orienta para encontrar e conhecer Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Trata-se do encontro não com uma ideia, nem com um projeto de vida, mas com uma Pessoa viva que nos transforma em profundidade a nós mesmos, revelando-nos a nossa verdadeira identidade de filhos de Deus. O encontro com Cristo renova os nossos relacionamentos humanos, orientando-os no dia-a-dia para uma maior solidariedade e fraternidade, na lógica do amor. Ter fé no Senhor não é algo que interessa unicamente à nossa inteligência, ao campo do saber intelectual, mas é uma mudança que compromete a vida, a totalidade do nosso ser: sentimento, coração, inteligência, vontade, corporeidade, emoções e relacionamentos humanos. Com a fé muda verdadeiramente tudo em nós e para nós, e revela-se com clareza o nosso destino futuro, a verdade da nossa vocação no interior da história, o sentido da vida, o gosto de sermos peregrinos rumo à Pátria celeste.
Mas perguntemo-nos: a fé é verdadeiramente a força transformadora da nossa vida, na minha vida? Ou então é apenas um dos elementos que fazem parte da existência, sem ser aquele determinante, que a abrange totalmente? Com as catequeses deste Ano da fé gostaríamos de percorrer um caminho para fortalecer ou reencontrar a alegria da fé, compreendendo que ela não é algo de alheio, separado da vida concreta, mas é a sua alma. A fé num Deus que é amor, e que se fez próximo do homem, encarnando e doando-se a si mesmo na cruz para nos salvar e reabrir as portas do Céu, indica de modo luminoso que a plenitude do homem consiste unicamente no amor. Hoje é necessário reiterá-lo com clareza, enquanto as transformações culturais em curso mostram com frequência tantas formas de barbárie, que passam sob o sinal de «conquistas de civilização»: a fé afirma que não há humanidade autêntica, a não ser nos lugares, nos gestos, nos tempos e nas formas como o homem é animado pelo amor que vem de Deus, se expressa como dom, se manifesta em relações ricas de amor, de compaixão, de atenção e de serviço abnegado ao próximo. Onde existe domínio, posse, exploração, mercantilização do outro por egoísmo próprio, onde há arrogância do eu, fechado em si mesmo, o homem torna-se pobre, degradado, desfigurado. A fé cristã, laboriosa na caridade e forte na esperança, não limita mas humaniza a vida, aliás, torna-a plenamente humana.
A fé é o acolhimento desta mensagem transformadora na nossa vida, o acolhimento da revelação de Deus, que nos faz conhecer quem Ele é, como age, quais são os seus desígnios para nós. Sem dúvida, o mistério de Deus permanece sempre além dos nossos conceitos e da nossa razão, dos nossos ritos e das nossas preces. Todavia, com a revelação é o próprio Deus quem se autocomunica, se descreve, se torna acessível. E nós tornamo-nos capazes de ouvir a sua Palavra e de receber a sua verdade. Eis, pois, a maravilha da fé: Deus, no seu amor, cria em nós - através da obra do Espírito Santo - as condições adequadas para que possamos reconhecer a sua Palavra. O próprio Deus, na sua vontade de se manifestar, de entrar em contacto connosco, de se fazer presente na nossa história, torna-nos capazes de o ouvir e acolher. São Paulo exprime-o assim, com alegria e reconhecimento: «Nós não cessamos de dar graças a Deus, porque recebestes a palavra de Deus, que de nós ouvistes, e porque a acolhestes não como palavra de homens, mas como aquilo que realmente é, palavra de Deus, que age eficazmente em vós, fiéis» (1 Ts 2, 13).
Deus revelou-se mediante palavras e obras em toda uma longa história de amizade com o homem, que culmina na Encarnação do Filho de Deus e no seu Mistério de Morte e Ressurreição. Deus não só se revelou na história de um povo, nem falou só por meio dos Profetas, mas atravessou o seu Céu para entrar na terra dos homens como homem, para que pudéssemos encontrá-lo e ouvi-lo. E de Jerusalém o anúncio do Evangelho da salvação propagou-se até aos confins da terra. A Igreja, nascida do lado de Cristo, tornou-se portadora de uma esperança nova e sólida: Jesus de Nazaré, crucificado e ressuscitado, Salvador do mundo, que está sentado à direita do Pai e é Juiz dos vivos e dos mortos. Este é o kerigma, o anúncio central e impetuoso da fé. Mas desde o início levantou o problema da «regra da fé», ou seja, da fidelidade dos crentes à verdade do Evangelho, na qual permanecer firmes, à verdade salvífica sobre Deus e sobre o homem, que se deve conservar e transmitir. São Paulo escreve: «Recebereis a salvação, se o mantiverdes [o Evangelho] como vo-lo anunciei. Caso contrário, em vão teríeis abraçado a fé»(1 Cor 15, 2).
Mas onde encontramos a fórmula essencial da fé? Onde encontramos as verdades que nos foram fielmente transmitidas e que constituem a luz para a nossa vida diária? A resposta é simples: no Credo, na Profissão de Fé, ou Símbolo da Fé, nós relacionamo-nos com o acontecimento originário da Pessoa e da História de Jesus de Nazaré; torna-se concreto quanto o Apóstolo das nações dizia aos cristãos de Corinto: «Transmiti-vos primeiramente o que eu mesmo tinha recebido: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia» (1 Cor 15, 3-4).
Ainda hoje temos necessidade que o Credo seja melhor conhecido, compreendido e pregado. Sobretudo, é importante que o Credo seja, por assim dizer, «reconhecido». Com efeito, conhecer poderia ser algo simplesmente intelectual, enquanto «reconhecer» quer significar a necessidade de descobrir o vínculo profundo entre as verdades que professamos no Credo e a nossa existência quotidiana, para que estas verdades sejam deveras e concretamente - como sempre foram - luz para os passos do nosso viver, água que rega a aridez do nosso caminho, vida que vence certos desertos da vida contemporânea. No Credo insere-se a vida moral do cristão, que nele encontra o seu fundamento e a sua justificação.
Não é por acaso que o Beato João Paulo II quis que o Catecismo da Igreja Católica, norma segura para o ensinamento da fé e fonte certa para uma catequese renovada, se inspirasse no Credo. Tratava-se de confirmar e conservar este núcleo fulcral das verdades da fé, comunicando-o numa linguagem mais inteligível aos homens do nosso tempo, a nós. É um dever da Igreja transmitir a fé, comunicar o Evangelho, a fim de que as verdades cristãs sejam luz das novas transformações culturais, e os cristãos se tornem capazes de explicar a razão da sua esperança (cf. 1 Pd 3, 14). Hoje, vivemos numa sociedade profundamente transformada, também em relação a um passado recente, e em movimento contínuo. Os processos da secularização e de uma difundida mentalidade niilista, em que tudo é relativo, marcaram profundamente a mentalidade comum. Assim, a vida é muitas vezes levada com superficialidade, sem ideais claros nem esperanças sólidas, no contexto de vínculos sociais e familiares fluidos, provisórios. Sobretudo as novas gerações não são educadas para a busca da verdade e do sentido profundo da existência, que ultrapasse o contingente, para a estabilidade dos afetos, para a confiança. Ao contrário, o relativismo leva a não ter pontos firmes, suspeita e volubilidade provocam ruturas nos relacionamentos humanos, enquanto a vida é vivida com experiências que duram pouco, sem assunção de responsabilidade. Se o individualismo e o relativismo parecem dominar o espírito de muitos contemporâneos, não se pode dizer que os crentes permanecem totalmente imunes a estes perigos, que devemos enfrentar na transmissão da fé. A sondagem realizada em todos os Continentes, em vista da celebração do Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização, evidenciou alguns: uma fé vivida de modo passivo e privado, a rejeição da educação para a fé, a rutura entre vida e fé.
Muitas vezes o cristão não conhece nem sequer o núcleo central da própria fé católica, do Credo, de modo a deixar espaço a um certo sincretismo e relativismo religioso, sem clareza sobre as verdades nas quais crer e sobre a singularidade salvífica do cristianismo. Hoje não está muito distante o risco de construir, por assim dizer, uma religião personalizada. Ao contrário, temos que voltar para Deus, para o Deus de Jesus Cristo, temos que redescobrir a mensagem do Evangelho, fazê-lo entrar de modo mais profundo nas nossas consciências e na vida quotidiana.
Nas catequeses deste Ano da fé gostaria de oferecer uma ajuda para percorrer este caminho, para retomar e aprofundar as verdades centrais da fé sobre Deus, o homem, a Igreja e toda a realidade social e cósmica, meditando e ponderando sobre as afirmações do Credo. E gostaria que fosse clara que estes conteúdos ou verdades da fé (fides quae) se relacionam diretamente com a nossa vida; exigem uma conversão da existência, que dá vida a um novo modo de crer em Deus (fides qua). Conhecer Deus, encontrá-lo, aprofundar os traços da sua Face põe em jogo a nossa vida, pois Ele entra nos dinamismos profundos do ser humano.
Possa o caminho que percorreremos este Ano fazer-nos crescer todos na fé e no amor a Cristo, para que aprendamos a viver, nas opções e gestos quotidianos, a vida boa e bela do Evangelho. Obrigado!

sábado, 17 de novembro de 2012

Uma oração para católicos frustrados

Essa é a oração de James Martin, padre jesuíta e editor de cultura da revista semanal America, fundada em 1909 pelos jesuítas dos EUA. É formado em economia pela Wharton School of Business, da Universidade da Pensilvânia, em filosofia pela Universidade Loyola, de Chicago e em teologia pela Weston Jesuit School of Theology, de Cambridge, onde também fez seu mestrado e doutorado em Teologia.

A oração foi publicada no sítio da revista America, 13/08/2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Veja abaixo a oração em vídeo, rezada pelo próprio Pe. Martin, em inglês.

Eis o texto.

Querido Deus, às vezes eu fico muito frustrado com a tua Igreja.

Eu sei que não estou sozinho. Muitas pessoas que amam a tua Igreja se sentem frustradas com o corpo de Cristo na terra. Padres e diáconos, e irmãos e irmãs podem se sentir frustrados também. E eu aposto que até mesmo bispos e papas se sentem frustrados. Nós nos preocupamos, nos inquietamos, nos incomodamos, nos irritamos e às vezes nos escandalizamos porque a tua instituição divina, nossa casa, está repleta de seres humanos que são pecadores. Assim como eu.

Mas eu fico frustrado acima de tudo quando sinto que há coisas que precisam ser mudadas, e eu não tenho o poder para mudá-las.

Por isso, eu preciso da tua ajuda, Deus.

Ajuda-me a lembrar que Jesus prometeu que estaria conosco até o fim dos tempos e que a sua Igreja é sempre guiada pelo Espírito Santo, mesmo que para mim seja difícil ver. Às vezes, a mudança acontece de repente, e o Espírito nos surpreende, mas muitas vezes isso acontece lentamente na Igreja. No teu tempo, não no meu. Ajuda-me a saber que as sementes que eu planto com amor no solo da tua Igreja irão florescer um dia. Por isso, dá-me paciência.

Ajuda-me a entender que nunca existiu um momento em que não houve discussões ou disputas dentro da tua Igreja. Discussões remontam até Pedro e Paulo, que debatiam entre si. E nunca existiu um momento em que não houve pecado entre os membros da tua Igreja. Esse tipo de pecado remonta a Pedro, que negou Jesus durante a sua paixão. Por que a Igreja de hoje seria diferente do que era para as pessoas que conheceram Jesus na terra? Dá-me sabedoria.

Ajuda-me a confiar na Ressurreição. O Cristo ressuscitado nos lembra que sempre há a esperança de algo novo. A morte nunca é a última palavra para nós. Nem o desespero. E ajuda-me a lembrar que, quando o Cristo ressuscitado apareceu aos seus discípulos, ele suportou as feridas da sua crucificação. Como Cristo, a Igreja está sempre ferida, mas é sempre uma portadora de graça. Dá-me esperança.

Ajuda-me a acreditar que o teu Espírito pode fazer qualquer coisa: elevar santos quando nós mais precisamos deles, amolecer os corações quando eles parecem endurecidos, abrir as mentes quando elas parecem fechadas, inspirar confiança quando tudo parece perdido, nos ajudar a fazer o que parecia impossível até ser feito. Esse é o mesmo Espírito que converteu Paulo, que inspirou Agostinho, que chamou Francisco de Assis, que incentivou Catarina de Sena, que consolou Inácio de Loyola, que confortou Teresa de Lisieux, que animou João XXIII, que acompanhou Teresa de Calcutá, que fortaleceu Dorothy Day e que encorajou João Paulo. É o mesmo Espírito que está connosco hoje, e o teu Espírito não perdeu nada do seu poder. Dá-me fé.

Ajuda-me a lembrar de todos os seus santos. Muitos deles passaram por coisas muito piores do que eu. Eles ficaram frustrados com a tua Igreja às vezes, lutaram com ela e ocasionalmente foram perseguidos por ela. Joana D'Arc foi queimada na fogueira pelas autoridades eclesiásticas. Inácio de Loyola foi jogado na prisão pela Inquisição. Mary Mackillop foi excomungada. Se eles puderam confiar na tua Igreja em meio a essas dificuldades, eu também posso. Dá-me coragem.

Ajuda-me a ser pacífico quando as pessoas me dizem que eu não pertenço à Igreja, que eu sou um herege ao tentar fazer as coisas melhor, ou que eu não sou um bom católico. Eu sei que fui batizado. Tu me chamaste pelo nome para estar em tua Igreja, Deus. Enquanto eu respirar, ajuda-me a lembrar como as águas sagradas do batismo me acolheram em tua sagrada família de santos e pecadores. Que a voz que me chamou à tua Igreja seja o que eu ouço quando outras vozes me dizem que eu não sou bem-vindo na Igreja. Dá-me paz.

Acima de tudo, ajuda-me a colocar toda a minha esperança no teu Filho. Minha fé está em Jesus Cristo. Dá-me apenas o teu amor e a tua graça. Isso me basta.

Ajuda-me, Deus, e ajuda a tua Igreja. Amém.


In http://www.ihu.unisinos.br

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Uma conversa sobre Fé




Uma semana depois da abertura do "Ano da Fé", o jornal digital essejota.net, entrevistou o Pe. Michael Paul Gallagher, s.j., sobre a Fé.
Paul Gallagher é um jesuíta irlandês que, entre 1995-2005, foi Professor de Teologia Fundamental na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Actualmente é decano da mesma Universidade. Publicou vários livros sobre temas como a "Fé e descrença, a cultura e espiritualidade". O seu mais recente livro chama-se "Faith Maps", um itinerário através de dez grandes crentes, de Newman a Joseph Ratzinger.

in www.religionline.blogspot.pt