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sábado, 22 de dezembro de 2012

Mensagem de Natal 2012, D. Jorge Ortiga


UMA JANELA ABERTA

Creio em Jesus Cristo, seu único filho, nosso Senhor,
que foi concebido pelo poder do Espírito Santo; nasceu da Virgem Maria.

A nostalgia do evento Átrio dos Gentios vai-se diluindo. Contudo, confesso que há uma frase, da mensagem que o Santo Padre escreveu pessoalmente, que me tem perseguido: “os homens sem Deus constroem edifícios de cimento armado sem janelas”.
Se na mensagem para o Advento, partindo da história da família de Abraão, pedi que passássemos do riso da descrença ao sorriso da fé em Deus todo-poderoso, nesta mensagem para o Natal alargo o leque para que também acreditemos naquele que encarnou e abriu uma janela nos edifícios humanos, de modo a contemplarem a luz radiosa de Deus: Jesus Cristo, seu único Filho, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nascendo da Virgem Maria.
Ora, no tempo de Jesus a família era tudo: lugar de nascimento, escola de vida e garantia de trabalho. Fora da família, o indivíduo ficava sem proteção nem segurança. Só na família encontrava a sua verdadeira identidade. Esta família não se reduzia ao pequeno lar constituído por pais e irmãos, mas alargava-se a todo o clã familiar. Dentro deste grande grupo, eles entreajudavam-se nos trabalhos, partilhavam alfaias agrícolas e os lagares de azeite, uniam-se para proteger as suas terras, definiam as regras de ação e estabeleciam fortes laços de amizade. Perder ou abandonar a família de origem, significava assim perder a segurança existencial.
Neste sentido, os ataques da atual sociedade de consumo pode reduzir o Natal a hábitos e rotinas comerciais, que disfarcem o genuíno sentido da sua origem: celebrar o Natal é festejar em família o nascimento do Salvador! Por conseguinte, a imagem da janela aberta traduz em si uma nova gramática do humano. Ela possibilita a entrada do transcendente no nosso interior e, simultaneamente, obriga-nos a olhar para o exterior, exigindo-nos a corresponsabilidade familiar, à semelhança da família de Nazaré. Porque se a chaminé (natal comercial) traz a satisfação do “eu”, a janela aberta (natal católico) favorece a comunhão do “nós”. Trabalhemos a nossa realidade familiar e abramos as portas da nossa família ao mundo!
Por isso, gostaria de deixar um desafio a todas as famílias da nossa Arquidiocese: percam a vergonha e façam um breve momento de oração, antes da refeição da Ceia de Natal, louvando os dons de Deus e recordando os irmãos que perderam a segurança familiar.
Para terminar, uma das mais antigas músicas natalícias lança-nos o imperativo: Adeste Fideles laeti triumphantes! Só contemplando o presépio com o código da fé, compreendemos o milagre do Natal: a união da família! Sem ela, o indivíduo fica privado de um projeto de realização humana.
Na certeza de que muitas janelas se abrirão, faço votos de um Santo Natal a todos os crentes e não-crentes! Porque, quer queiramos quer não, se Maria não tivesse dito sim à proposta divina e, por inerência, Jesus não tivesse nascido, ainda estaríamos fechados na obscuridade dos edifícios de cimento armado e a perguntar: afinal, quem é somos e para onde vamos?
               
Um bom Natal a todos e, particularmente, àqueles que não experimentam o calor familiar!

+ Jorge Ortiga, A.P.
23 de Dezembro de 2012.


domingo, 18 de novembro de 2012

A fé ensina a viver melhor?

...cada vez estamos mais distantes da fonte, do original, do acontecimento, porque vivemos na novela dos comentários e das interpretações.

A fé, manifestada em Jesus, ensina-nos a viver neste mundo. O nosso ponto de partida pode ser a passagem da Carta a Tito (Tt 2, 12), onde se diz a propósito de Jesus: “a graça de Deus, fonte de salvação, manifestou-se a todos os homens, ensinando-nos a viver neste mundo”.  Esta frase é um desafio, antes de tudo, a tomarmos a sério a humanidade de Jesus como narrativa de Deus e do Homem. Nessa humanidade temos o caminho, a verdade e a vida.
Hoje sentimos a necessidade muito grande de uma fé orientada para a vida. De uma fé que possa constituir uma arte de viver, um laboratório para uma existência autêntica e não apenas para a manutenção de um conjunto de práticas fragmentárias. E precisamos reencontrar ou reinventar, a partir da fé, uma gramática do humano. A fé é um exercício muito concreto de confiança na narrativa de Deus que Jesus nos relata com a sua própria vida, com o seu próprio corpo, os seus gestos, o seu silêncio, a sua história, a poética da sua humanidade. Que se pode concluir então? Que Deus, por exemplo, não bate a uma porta que nós não temos, mas está à nossa porta e bate; que Deus não está numa época passada ou futura simplesmente, mas Deus emerge no nosso presente histórico e é aí (é aqui!) que o encontro com Ele se torna para nós decisivo. 
Há um ensaio literário de uma grande autora americana, Susan Sontag, onde ela se levanta contra a interpretação, porque diz, “O mundo encheu-se de comentários, já só vivemos de coisas em segunda mão”. De facto, cada vez estamos mais distantes da fonte, do original, do acontecimento, porque vivemos na novela dos comentários e das interpretações. Há sempre mais uma interpretação que se sobrepõe, à maneira de cascas de cebola. Mas o que é a essência do (nosso) problema? O que é o núcleo fundamental? Isso como que nos escapa. E Sontag dizia que o que temos a fazer é ensinar a ver melhor, a ouvir melhor, a saborear melhor, a tocar melhor. No fundo, a exercitar melhor a nossa humanidade. Uma fé vivida aqui e agora é também uma fé que não se deixa capturar pelo labirinto epidérmico dos meros comentários,  mas arrisca-se a construir como uma aventura na ordem do ser.
José Tolentino Mendonça
In http://www.agencia.ecclesia.pt

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Ouvir as razões de quem não crê

D.R. | Cardeal Gianfranco Ravasi

O presidente do Conselho Pontifício da Cultura, cardeal Gianfranco Ravasi, apresenta em entrevista à Agência ECCLESIA o projeto do ‘Átrio dos Gentios’, uma iniciativa que valoriza a “escuta” de quem tem outras convicções, por parte da Igreja Católica, e procura ir ao encontro dos grandes temas da vida

Depois de Paris, Barcelona, Estocolmo, Tirana, Budapeste ou Florença, entre outras cidades, o Átrio dos Gentios vai chegar a Portugal, em plena crise, para falar do valor da vida, de esperança e da necessidade de resolver as questões fundamentais para se encontrarem soluções para as “pequenas coisas”. Guimarães e Braga, respetivamente capitais europeias da Cultura e da Juventude, acolhem a iniciativa, nos dias 16 e 17 de novembro.

Agência ECCLESIA – Como nasceu a ideia de criar um «Átrio dos Gentios»?
Cardeal Gianfranco Ravasi – A fonte, o ponto de partida é a intervenção de Bento XVI nas saudações à Cúria Romana, no Natal de 2009. Nessa ocasião, o Papa falou da necessidade de constituir uma espécie de ‘átrio dos gentios’, onde pudessem entrar os que não acreditam mas se interrogam sobre a transcendência, os grandes valores, a humanidade e, eventualmente, sobre o Deus desconhecido.
Nós, como um Conselho Pontifício que tinha em si a tradição de ser o Secretariado para os Não Crentes, criado após o Concílio Vaticano II (1962-1965), pensámos institucionalizar o ‘Átrio dos Gentios’ como espaço de diálogo entre crentes e não crentes sobre os grandes temas: a verdade, a justiça, o direito, a arte, o amor, a morte, a palavra sagrada das tradições religiosas, a transcendência, a ciência, o mal, a dor.
Começámos na Universidade da Bolonha (Itália), num encontro sobre ciência, filosofia e literatura, antes de ir a Paris, para a grande inauguração [março de 2011], porque era considerada a capital mais laica, secularizada da Europa.
Daí em diante, tivemos pedidos de dezenas e dezenas de cidades ou instituições, religiosas e não crentes, pelo que estivemos em Florença, para falar sobre a arte; em Palermo, sobre o direito, onde há o problema da Mafia; em Bucareste e Tirana, encontrámo-nos com os herdeiros do ateísmo; em Barcelona, para além da arte, houve o mundo da ciência, com o envolvimento de todas as universidades.

AE – Este é um projeto que implica a capacidade de ouvir. Como tem sido recebido este desafio pela Igreja Católica, mais habituada a uma dinâmica do discurso do que da escuta?
GR – Este elemento a que se refere é, seguramente, o mais importante, porque a caraterística fundamental [do átrio] está numa palavra, que usamos quase como símbolo: o diálogo.
A palavra, na sua origem grega, significa encontro de dois discursos: por isso, crentes e não crentes chegam com as suas razões, não é simplesmente para procurar um mínimo denominador comum. É antes a possibilidade de dizer com clareza, de forma elevada e também de forma popular, qual é a identidade de crentes e não crentes sobre os temas fundamentais da vida e, se quisermos, do mistério.
Por isso, a escuta é fundamental: não se pode fazer um ‘Átrio dos Gentios’ só com crentes ou não crentes. Hoje, além das dioceses, há organizações laicas que se organizam e nos convidam, como aconteceu na Cidade do México, onde irei em maio [2013], onde um professor, um filósofo não crente iniciou este percurso. A Igreja, neste caso, coloca-se numa posição de observadora das razões que transporta a própria razão.
Acredito que esta seja uma forma de celebrar, de forma nova, o Concílio Vaticano II.

AE – O último Sínodo dos Bispos (7-28 de outubro, Vaticano), sobre a nova evangelização, fez referência ao átrio nas propostas que entregou ao Papa. Este é um projeto para a conversão dos não crentes?
GR – Não, não. Diria antes que é muito semelhante ao ‘kerygma’, isto é, ao anúncio. Dou como exemplo a passagem de São Paulo pelo areópago [Atenas]: ele está num contexto cultural completamente diferente e adota uma linguagem que é compreensível para os seus interlocutores, mostra conhecer a sua cultura e depois apresenta a sua identidade cristã. Isto não quer dizer que os convença, até porque foi rejeitado. Alguns, no entanto, converteram-se.
Entendo que ambos, crentes e não crentes, não se reúnem no ‘Átrio dos Gentios’ para informar, simplesmente, porque a mensagem que têm é apresentada com ardor, é uma mensagem performativa. Não fazemos um congresso, apresentamos valores e eles, como tal, têm uma carga de convicções, os não crentes têm razões que nos fazem pensar, vividas com intensidade. É por isso que digo que não é evangelização, mas também não é um congresso temático, é um encontro de visões, de conceções. Nesse sentido, os cristãos também devem dar um testemunho caloroso.
Na UNESCO, em Paris, Jean Vanier falou do Movimento Fé e Luz, que se ocupa de pessoas com deficiência. Ele não estava ali para convencer os outros, mas o seu testemunho impressionou os não crentes; não o escolhemos para convertê-los, mas para que vissem o valor do amor cristão em prática. É por isso que digo que não é um congresso.

AE – Quais foram os momentos do Átrio dos Gentios que mais destacaria, até ao momento?
GR – Eu diria que os mais curiosos foram em Assis e Estocolmo. Em Assis, veio falar comigo o presidente da República da Itália, Giorgio Napolitano, que não é crente, mas é um homem muito nobre do ponto de vista moral e mesmo espiritual, devo dizer.
Ali havia seis tendas diferentes, nas quais se debatiam vários temas, em diálogo com crentes e não crentes, como os jovens, o grito da Terra, a mística.
Outro momento de sucesso, inesperado, foi em Estocolmo, na Academia do Prémio Nobel e depois num centro juvenil, o maior da Europa. Num ambiente fortemente laico, quase anticristão, diria, houve um interesse de tal ordem que fizemos 3 horas e 40 minutos de intervenções, sem intervalo, com transmissão televisiva.

AE – Como se vai desenvolver este átrio, no futuro?
GR – Há uma nova formulação, que está a suscitar muito interesse, ligada a categorias particulares: fizemos, por exemplo, átrios para crianças de famílias crentes e não crentes que foram um grande sucesso. Também já decorreram sessões para diplomatas e embaixadores e temos a intenção de promover um Átrio dos Gentios para jornalistas, para músicos, para o Cinema. Este será o futuro, para além das cidades.

Agência Ecclesia – A sessão de Guimarães e Braga, capitais europeias da Cultura e da Juventude, tem como tema «O valor da vida». Não é uma escolha demasiado genérica?
Cardeal Gianfranco Ravasi – Esta é a primeira vez, de facto, que abordamos – escolhido em Portugal – um tema tão vasto, antropológico. Penso, no entanto, que a vantagem é que, por causa de haver muitas intervenções, se possa obrigar as pessoas a abordar temas que não são dados por adquiridos. Ou seja, não se trata apenas de falar da bioética – alguns intervirão sobre estas questões das células estaminais, o aborto, a eutanásia -, mas de introduzir elementos que são a base para justificar o discurso da bioética.

AE – O que espera do debate com João Lobo Antunes ['o valor e o sentido da vida de cada ser humano']?
GR – Ainda não estruturei completamente o que quero dizer, mas quero insistir muito, usando textos bíblicos da categoria de “relação” e, portanto, da categoria de “corporeidade”, do corpo, por exemplo. Também quero falar da categoria de “limite”, da finitude do ser humano, isto é, da grandeza e da impotência: a crise, o mal, a dor, a morte e, por outro lado, a grandeza da criatura humana na sua relação com o transcendente, com o semelhante e com a matéria.
Tendo um tema muito amplo, vai ser possível mover-se sobre as grandes coordenadas, os grandes temas que muitas vezes não são abordados na sociedade contemporânea, que reduz tudo às questões imediatas. Penso que isto é algo com valor nesta sessão do átrio, até porque são cidades ligadas à cultura e aos jovens: quisemos falar mais de cultura, no sentido lato, mais do que de qualquer questão específica, ainda que cada interveniente aborde pontos concretos.

AE – Há a intenção de falar a todo o país, num momento de crise, de dizer alguma coisa ao Portugal de hoje?
GR – Penso que, ao falar de antropologia - também vou introduzir a referência ao transcendente – se vai introduzir o tema da esperança. Não conheço Portugal, apesar de o ter visitado algumas vezes, mas penso que vive a mesma experiência difícil de Espanha e Itália, pelo que há o risco de que as pessoas se contentem apenas com as “pequenas coisas”.
Assim, fazer uma intervenção forte sobre os grandes valores, é uma forma de sacudir um pouco as consciências e dizer: ‘Não se resolvem as coisas pequenas sem enfrentar as grandes’. Isto é, temos de criar uma atmosfera que não se limite às questões económicas nem financeiras, porque os seus problemas nasceram, em boa parte, quando se esqueceram as questões éticas, morais.
A verdadeira economia é uma ciência humanista, dizia o economista e prémio nobel indiano Amartya Sen. Por esse motivo, a falta de moralidade na finança, nos mercados, gerou miséria.
Acredito que voltar a oferecer ideias sobre a moral, os grandes valores, é algo precioso nesta situação.

AE – O Átrio dos Gentios passa pelas cidades num grande evento, que mobiliza muitas pessoas. Como manter esta dinâmica, após a realização de cada sessão?
GR – Essa é uma questão fundamental. Os primeiros eventos eram, por assim dizer, promocionais, para nos fazermos conhecer. Depois disso, em todos os lugares onde fomos, quisemos lançar, em concordância com todas as outras instituições que colaboraram nas sessões, uma espécie de comité, um grupo que continua a manter encontros de nível mais simples. É curioso o facto de a Universidade de Florença ter lançado um curso de um ano sobre temas da arte, lidos por crentes ou não crentes.
Na prática, posso dizer que a continuidade é assegurada, porque há outros eventos, de menor dimensão, em cidades próximas das que acolheram as sessões. O esforço é continuar, de outras formas, a experiência mais importante, e também em Portugal estamos já a pensar nesta continuidade. É uma condição indispensável.

In http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=93130

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Uma conversa sobre Fé




Uma semana depois da abertura do "Ano da Fé", o jornal digital essejota.net, entrevistou o Pe. Michael Paul Gallagher, s.j., sobre a Fé.
Paul Gallagher é um jesuíta irlandês que, entre 1995-2005, foi Professor de Teologia Fundamental na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Actualmente é decano da mesma Universidade. Publicou vários livros sobre temas como a "Fé e descrença, a cultura e espiritualidade". O seu mais recente livro chama-se "Faith Maps", um itinerário através de dez grandes crentes, de Newman a Joseph Ratzinger.

in www.religionline.blogspot.pt