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quinta-feira, 9 de maio de 2013

«Comunicador, quem é o teu próximo?» - Dia Mundial das Comunicações Sociais



A Igreja Católica assinala no próximo domingo, da Ascensão, o Dia Mundial das Comunicações Sociais.
Sobre o tema propomos alguns excertos da intervenção que o papa Francisco proferiu em outubro de 2002 na capital argentina, quando era cardeal e arcebispo de Buenos Aires. A conferência baseia-se na parábola bíblica do Bom Samaritano (Lucas 10, 25-37).

Comunicador, quem é o teu próximo?
Card. Jorge Mario Bergoglio (papa Francisco)

Ao abordar a reflexão do tema que me foi proposto, não posso, como cristão, deixar de referir-me inicialmente ao Evangelho. Não só porque a pergunta «quem é o teu próximo?» está inspirada na parábola do Bom Samaritano, mas - e principalmente - porque o Evangelho do Senhor é precisamente comunicar uma boa notícia.

O evangelho como boa notícia
«Vão por todo o mundo e anunciem o Evangelho». «Ensinem todos os homens a cumprir tudo o que vos mandei»: a lei da caridade. O Evangelho é uma boa notícia que temos a missão de anunciar a todos e "desde os telhados". E se aprofundamos mais, constatamos que os critérios mais profundos do anúncio, também para os novos media, são os do Evangelho. Por este motivo abordo o tema a partir desta perspetiva. Por outro lado, o desafio apresentado pelos media, com as suas tecnologias, o seu alcance global, a sua omnipresença e a sua influência sobre a sociedade e a cultura, são um convite ao diálogo e à "inculturação do Evangelho" (...).

terça-feira, 19 de março de 2013

Homilia do Papa Francisco na Santa Missa Inaugural do Ministério Petrino

SANTA MISSA
IMPOSIÇÃO DO PÁLIO
E ENTREGA DO ANEL DO PESCADOR
PARA O INÍCIO DO
MINISTÉRIO PETRINO
DO BISPO DE ROMA HOMILIA DO PAPA FRANCISCO
Praça de São Pedro
Terça-feira, 19 de março de 2013
Solenidade de São José


  

Queridos irmãos e irmãs!
Agradeço ao Senhor por poder celebrar esta Santa Missa de início do ministério petrino na solenidade de São José, esposo da Virgem Maria e patrono da Igreja universal: é uma coincidência densa de significado e é também o onomástico do meu venerado Predecessor: acompanhamo-lo com a oração, cheia de estima e gratidão.
Saúdo, com afeto, os Irmãos Cardeais e Bispos, os sacerdotes, os diáconos, os religiosos e as religiosas e todos os fiéis leigos. Agradeço, pela sua presença, aos Representantes das outras Igrejas e Comunidades eclesiais, bem como aos representantes da comunidade judaica e de outras comunidades religiosas. Dirijo a minha cordial saudação aos Chefes de Estado e de Governo, às Delegações oficiais de tantos países do mundo e ao Corpo Diplomático.
Ouvimos ler, no Evangelho, que «José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor e recebeu sua esposa» (Mt 1, 24). Nestas palavras, encerra-se já a missão que Deus confia a José: ser "custos", guardião. Guardião de quem? De Maria e de Jesus, mas é uma guarda que depois se alarga à Igreja, como sublinhou o Beato João Paulo II: «São José, assim como cuidou com amor de Maria e se dedicou com empenho jubiloso à educação de Jesus Cristo, assim também guarda e protege o seu Corpo místico, a Igreja, da qual a Virgem Santíssima é figura e modelo» (Exort. ap. Redemptoris Custos, 1).

sexta-feira, 8 de março de 2013

As mulheres na vida da Igreja e do mundo - Bento XVI

No Dia Internacional da Mulher, recordamos excertos de algumas das reflexões sobre santas da Idade Média e Renascimento que o papa emérito Bento XVI proferiu nas audiências gerais de quarta-feira realizadas em 2010 e 2011.

Santa Hildegarda de Bingen
As visões místicas de Hildegarda são ricas de conteúdos teológicos. Referem-se aos eventos principais da história da salvação e utilizam uma linguagem sobretudo poética e simbólica. Por exemplo, na sua obra mais conhecida, denominada Scivias, isto é «Conhece as vias», ela resume em trinta e cinco visões os acontecimentos da história da salvação, desde a criação do mundo até ao fim dos tempos. Com os traços característicos da sensibilidade feminina, Hildegarda, exatamente na secção central da sua obra, desenvolve o tema do matrimónio místico entre Deus e a humanidade, realizado na Encarnação. No madeiro da Cruz realizam-se as núpcias do Filho de Deus com a Igreja, sua esposa, cheia de graça e tornada capaz de doar a Deus novos filhos, no amor do Espírito Santo (cf. Visio tertia: PL 197, 453c).
Já destes breves trechos vemos que também a teologia pode receber uma contribuição peculiar das mulheres, porque são capazes de falar de Deus e dos mistérios da fé com a sua singular inteligência e sensibilidade. Portanto, encorajo todas aquelas que desempenham este serviço a realizá-lo com profundo espírito eclesial, alimentando a própria reflexão com a oração e olhando para a grande riqueza, ainda em parte inexplorada, da tradição mística medieval, sobretudo a representada por modelos luminosos, justamente como Hildegarda de Bingen. (...)
Noutros escritos Hildegarda manifesta a versatilidade de interesses e a vivacidade cultural dos mosteiros femininos da Idade Média, contrariamente aos preconceitos que ainda pesam sobre aquela época. Hildegarda ocupou-se de medicina e de ciências naturais, inclusive de música, sendo dotada de talento artístico. Compôs hinos, antífonas e cânticos, que foram reunidos sob o título Symphonia Harmoniae Caelestium Revelationum (Sinfonia da harmonia das revelações celestiais), que eram executados jubilosamente nos seus mosteiros, difundindo uma atmosfera de serenidade, e que chegaram até nós. Para ela, toda a criação é uma sinfonia do Espírito Santo, que é alegria e júbilo em si mesmo.
Imagem
A popularidade que circundava Hildegarda impulsionava muitas pessoas a interpelá-la. Por este motivo, dispomos de muitas suas cartas. A ela dirigiam-se comunidades monásticas masculinas e femininas, bispos e abades. Muitas respostas permanecem válidas inclusive para nós.

Não tenhamos medo de amar a Igreja do presente e aquela que gostaríamos que fosse no futuro - Eleição do novo papa

Cardeal português José Saraiva Martins 7.3.2013 Foto: AP Photo/Alessandra Tarantino - Na Praça de São Pedro, no Vaticano, após reunião do Colégio Cardinalício que antecede o conclave para a eleição do sucessor de Bento XVI.
Eleição do novo papa

Quando fiz reportagem no Vaticano dos conclaves de 1978, que elegeu João Paulo II, e de 2005, com a escolha de Bento XVI, não faltavam “adivinhações” dos jornalistas. Alguns citavam circunspectos dossiês de estudiosos que sonhavam influenciar os cardeais eleitores, indicando-lhes as reformas mais urgentes na Igreja.
Em síntese, naqueles tempos, sobretudo em 1978, as propostas que o novo Papa deveria ter na agenda, logo nos seus 100 dias de pontificado, eram as seguintes: abolir as nunciaturas; fazer eleger os bispos nas respetivas regiões eclesiásticas; conferir poderes deliberativos aos sínodos dos bispos; instituir no vértice da Igreja um órgão colegial que, sob a presidência pessoal e efetiva do Papa, tratasse, pelo menos duas vezes por semana, os problemas que se põem à Igreja no seu conjunto, tomando as decisões oportunas.
Em destaque estava ainda libertação do medo da revolução sexual, renovando a moral cristã nesse campo.
Propostas idênticas voltaram a emergir em 2005, quando foi eleito Bento XVI.
João Paulo II e Bento XVI não seguiram tais conselhos.
Nada disso impede que idênticos sonhos se projetem agora para o novo conclave.
Logo à cabeça, a reforma da Cúria romana, mudando a ideia e a prática de governo pela de serviço.
Respeito pelo princípio da subsidiariedade, que a Igreja tanto recomenda à sociedade civil, sem o aplicar dentro de casa, como já defendia Pio XII, sem menosprezo da sua estrutura hierárquica.
O exercício da autoridade na Igreja funciona mal quando não se respeita a colegialidade. O poder deve ser um carisma de serviço. Não é bom bispo ou bom padre aquele que não sabe estimular todos os dons do povo de Deus, na diversidade vocacional e ministerial.
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Cardeal francês Paul Poupard, primeiro presidente do Pontifício Conselho da Cultura. Vaticano, 7.3.2013. Foto: REUTERS/Alessandro Bianchi

Mais do que discutirmos se o Concílio Vaticano II deve ser interpretado na hermenêutica da continuidade ou da descontinuidade, será importante redescobri-lo como quem encontra o seu tesouro. A pedra preciosa pode ser a função eclesial da Teologia, que não tem de dar a ideia que perdeu vitalidade e criatividade ou se enreda nos aparentes ou reais conflitos com o magistério eclesial, universal ou local.
O peso europeu ou americano não pode esmagar a Igreja emergente nos países em vias de desenvolvimento, onde os cristãos não sofrem os males do secularismo e estão a crescer.
Moral da história deste apontamento ligeiro, mais virtual do que real: na expectativa da eleição do novo Papa, é natural que nos interroguemos para onde vai a Igreja e para onde é que nós queremos ir.
A Igreja não é uma corporação, mas um corpo vivo cuja vitalidade se exprime na comunhão do Espírito. Não tenhamos medo de amar a Igreja que somos no presente, a que gostaríamos que ela fosse já e no futuro, correspondendo mais e melhor àquela que Deus mais gosta que ela seja.
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O cardeal francês Philippe Barbarin percorre de bicicleta a Praça de São Pedro, no Vaticano, após uma reunião do Colégio Cardinalício. 6.3.2013. Foto: AP Photo/Alessandra Tarantino

Cón. Rui Osório
In Voz Portucalense, 6.3.2013

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Retiro para casais

A Equipa da Pastoral Familiar do Arciprestado de Vila Nova de Famalicão está a organizar um RETIRO PARA CASAIS. Este será seguramente uma oportunidade de aprofundamento da espiritualidade do casal e consequentemente da família. 
O retiro começa no dia 8 de Março, sexta-feira, com o jantar às 20h, no Centro Apostólico do Sameiro e terminará no dia 10, domingo, à tarde. Para orientar o retiro contamos com a presença do Cónego Vítor Novais, reitor do Seminário Conciliar da Arquidiocese de Braga.
Mais informamos que as instalações e condições são muito boas e têm por custos os seguintes preços: dormida em quarto duplo 36 euros, e refeição 10 euros (com bebidas) o que perfaz um total de 152€ por casal. Contudo, que ninguém deixe de participar por questões económicas. Estamos dispostos a ajudar quem precisar.Para o efeito contactem a equipa arciprestal através do email.
Deixamos aqui também a ficha de inscrição, a qual poderá chegar por email familia.arciprestado@gmail.com ou pessoalmente, à Equipa da Pastoral Familiar Arciprestal, até ao dia 1 de Março (semana anterior à do retiro). Há limite de inscrições.
Naturalmente que o contacto pessoal é sempre mais "eficaz" do que o anúncio para todos. 
Se gostarias de ter uma experiência deste género, pois contacta a Equipa da Pastoral Familiar Arciprestal para o email acima referido.
A Equipa de Pastoral Familiar do Arciprestado de Vila Nova de Famalicão

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Carta a Diogneto

“Jóia da antiguidade cristã”, “pérola da apologética do século II”, a carta a Diogneto, de autor anónimo, é um precioso fragmento da primitiva experiência cristã e do esforço de diálogo da Igreja com a cultura circunstante. Escrita provavelmente nos finais do século II, nela se encontram autênticas parcelas de ouro puro da sabedoria evangélica que conferem a este texto uma actualidade singular.

V.1 Os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes.  
2 Nem, em parte alguma, habitam cidades peculiares, nem usam alguma língua distinta, nem vivem uma vida de natureza singular.  
3 Nem uma doutrina desta natureza deve a sua descoberta à invenção ou conjectura de homens de espírito irrequieto, nem defendem, como alguns, uma doutrina humana.  
4 Habitando cidades Gregas e Bárbaras, conforme coube em sorte a cada um, e seguindo os usos e costumes das regiões, no vestuário, no regime alimentar e no resto da vida, revelam unanimemente uma maravilhosa e paradoxal constituição no seu regime de vida político-social.
5 Habitam pátrias próprias, mas como peregrinos: participam de tudo, como cidadãos, e tudo sofrem como estrangeiros. Toda a terra estrangeira é para eles uma pátria e toda a pátria uma terra estrangeira. 
6 Casam como todos e geram filhos, mas não abandonam à violência os neonatos. 
7 Servem-se da mesma mesa, mas não do mesmo leito.  
8 Encontram-se na carne, mas não vivem segundo a carne.  
9 Moram na terra e são regidos pelo céu.  
10 Obedecem às leis estabelecidas e superam as leis com as próprias vidas.
11 Amam todos e por todos são perseguidos.
12 Não são reconhecidos, mas são condenados à morte; são condenados à morte e ganham a vida.
13 São pobres, mas enriquecem muita gente; de tudo carecem, mas em tudo abundam.
14 São desonrados, e nas desonras são glorificados; injuriados, são também justificados.
15 Insultados, bendizem; ultrajados, prestam as devidas honras.
16 Fazendo o bem, são punidos como maus; fustigados, alegram-se, como se recebessem a vida.
17 São hostilizados pelos Judeus como estrangeiros; são perseguidos pelos Gregos,
e os que os odeiam não sabem dizer a causa do ódio.

VI. 1 Numa palavra, o que a alma é no corpo, isso são os cristãos no mundo.
2 A alma está em todos os membros do corpo
e os cristãos em todas as cidades do mundo.
3 A alma habita no corpo, não é, contudo, do corpo;
também os cristãos, se habitam no mundo, não são do mundo.
4 A alma invisível vela no corpo visível;
Também os cristãos sabe-se que estão neste mundo, mas a sua religião permanece invisível.
5 A carne odeia a alma, e, apesar de não a ter ofendido em nada, faz-lhe a guerra, só porque se lhe opõe a que se entregue aos prazeres; da mesma forma, o mundo odeia os cristãos que não lhe fazem nenhum mal, porque se opõem aos seus prazeres.
6 A alma ama a carne, que a odeia, e os seus membros;
Também os cristãos amam os que os odeiam.
7 A alma está encerrada no corpo, é todavia ela que sustém o corpo.
Também os cristãos se encontram retidos no mundo como em cárcere, mas são eles que sustêm o mundo.
8 A alma imortal habita numa tenta mortal;
Também os cristãos habitam em tendas mortais, esperando a incorrupção nos céus.
9 Provada pela fome e pela sede, a alma vai-se melhorando; também os cristãos, fustigados dia-a-dia, mais se vão multiplicando.
10 Deus pô-los numa tal situação, que lhes não é permitido evadir-se.

VII.1 Não foi, pois, como dizia, uma invenção terrena esta que lhes foi transmitida, nem, deste modo, professam guardar com tal cuidado uma ideia mortal, nem é a administração de mistérios humanos que lhes é confiada.
2 Mas o próprio, verdadeiramente Omnipotente, o Criador de todas as coisas, o Deus invisível, ele próprio enviando do alto dos céus a Verdade, o seu Verbo santo e incompreensível aos homens que inseriu nos seus corações: não, como alguém poderia imaginar, que tenha enviado aos homens algum subordinado, anjo ou arconte, ou algum dos que governam as coisas terrenas, ou daqueles a quem foram confiadas as administrações dos céus, mas o próprio Artífice e Demiurgo de todas as coisas, por quem fundou os céus, encerrou os mares nos seus próprios limites; cujos mistérios todos os elementos guardam fielmente; da parte do qual o sol recebeu as medidas a observar no seu curso quotidiano; ao qual a Lua obedece, quando lhe ordena que brilhe durante a noite; aoqual obedecem os astros que acompanham o curso da Lua; Por ele todas as coisas foram ordenadas, delimitadas e submetidas: os céus e o que há nos céus; a terra e as coisas que há na terra; o mar e tudo o que há no mar; o fogo, o ar e os abismos; as coisas que há nas alturas e nas profundezas e no espaço intermédio: foi Ele que Deus lhes enviou. 
3 Acaso, como algum dos homens pensaria, na tirania, no temor e no pavor?  
4 De modo nenhum, mas enviou-o na clemência e na doçura, como um Rei que enviou o Filho Rei, enviou-o como Deus. Como Homem enviou-o aos homens: enviou-o para salvar, pela persuasão e não pela força. Efectivamente, a violência não se ajusta a Deus.  
5 Enviou-o como quem chama, não como quem persegue; enviou-o como quem ama, não como quem condena.  
6 Efectivamente, enviá-lo-á para julgar. E quem suportará a Sua manifestação?
7 (Não vês) que são lançados às feras, para que neguem o Senhor, e não se deixam vencer? 8 Não vês que quanto mais perseguidos são, mais numerosos se tornam? 
9 Estas coisas não me parece que sejam obras do homem: elas são força de Deus, elas são manifestações da Sua presença.
Anónimo

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Já leste São Paulo?



Numa daquelas frases inesquecíveis que cunhou, Paulo de Tarso escreve: «quando sou fraco, então é que sou forte» (2 Cor 12,10). E a nossa pergunta vem imediata: “que homem enigmático é este que revolve a ordem esperada das coisas, elogiando a fragilidade em vez da força?”. A verdade é que quem pretenda tornar-se leitor de Paulo tem de adequar o ouvido e o coração a uma linguagem paradoxal, que nos desconcerta, nos comove e nos forma. A gramática que ele utiliza (isto é, o seu modo de pensar e de dizer) estilhaça as convenções. A tradição judaica olhou para a pregação dele com suspeita e escândalo. Os gregos e os romanos, habituados à sofisticação do pensamento e ao poder da retórica, menosprezaram o seu discurso que lhes parecia uma loucura. E, mesmo hoje, passados dois mil anos do seu nascimento, o seu discurso não deixa de ressoar profético e desafiador. (...)



Esse enigma chamado Paulo

Um consenso muito amplo, que reúne as mais antigas tradições cristãs e os recentes dados das ciências hermenêuticas e históricas, afirma claramente que as Cartas de Paulo são os primeiros escritos cristãos que chegaram até nós. Esperar-se-ia que a nossa cultura, que vibra com a arqueologia das origens e o retorno às fontes, nos tivesse impelido para uma apropriação apaixonada e competente desse conjunto de textos fundamentais da identidade crente. Há que reconhecer, porém, que o grande Paulo permanece um autor desconhecido, mal amado e distante, mesmo para a maioria dos cristãos.


O uso litúrgico aproxima-nos, evidentemente, dos seus textos, lidos e relidos ao longo do ano. Mas a verdade é que, no contexto litúrgico, leem-se trechos selecionados ou sublinham-se frases teológicas, demasiado densas para o desbravar, necessariamente contido, de uma celebração. E, claro, os detalhes concretos que conferem unidade a cada carta são frequentemente deixados de parte. Como dizia o escritor Oscar Wilde, acerca dos limites do nosso conhecimento das Escrituras, «ouvimos lê-las demasiadas vezes, e mal demais, e toda a repetição é antiespiritual». Mas também é verdade que permanece inquebrável e sempre atual a certeza de que a vitalidade da Igreja não se constrói sem o recurso ao pensamento de Paulo. Tornou-se uma espécie de slogan dizer que “Sempre que a Igreja é relevante, ela é Paulina”, e há aí muito de razão. Basta pensar na fecunda redescoberta, cheia de consequências, que a Teologia fez de São Paulo no século XX e que deixou uma marca decisiva no Concílio Vaticano II. Por isso, mesmo se Paulo não é ainda conhecido de maneira sistemática pelos cristãos, a verdade é que as suas palavras e imagens dão-nos já o melhor retrato daquilo que é o mistério da Igreja e da própria existência cristã.



A reativação dos escritos de Paulo

Para chegar a Paulo é preciso atravessar uma floresta de ideias-feitas e preconceitos. Paulo é, como hoje se diz, um autor com “má imprensa”. É corrente ouvir que ele é um legalista, que perpetuou modelos patriarcais que desvalorizavam as mulheres, que tem uma fobia às questões do corpo e da sexualidade, que é um conservador em termos sociais, etc, etc. Já no séc. XIX, Ernest Renan escrevia num best-seller sobre Jesus: «O verdadeiro cristianismo, aquele que perdurará para sempre, vem dos Evangelhos e não das 13 cartas de Paulo. Paulo é um perigo, um escolho… Paulo é a causa dos principais defeitos da teologia cristã». E essa opinião deixou sementes. Muitas vezes se vê opor-se a linguagem de Jesus, parabólica e aberta, ao discurso teológico e pretensamente estreito de Paulo, num conflito de interpretações superficial e descabido.


Mas também se dá um facto paradoxal: multiplicam-se hoje os ensaios e leituras sobre Paulo e as suas Cartas, por parte de importantes nomes do pensamento contemporâneo. Se é verdade que, de Santo Agostinho a Lutero, de Karl Barth ao nosso Teixeira de Pascoaes, na teologia, na filosofia, nas expressões iconográficas ou na literatura, a pessoa e o pensamento de Paulo nunca deixaram de ser referenciais, também é verdade a surpreendente efervescência do panorama atual. O filósofo Alain Badiou publicou, no início dos anos 90, uma reflexão entusiasta sobre a figura de Paulo a que intitulou “São Paulo. A fundação do Universalismo”. A universalidade que Paulo prega não vem do que é já inerente e consubstancial ao indivíduo (a sua pertença a uma família, a una nação, a uma língua… traços que são necessariamente particularistas), mas de um Evento. O que produz a verdade sobre o homem e sobre todos os homens é agora um Evento e uma Proclamação que contrastam com a multiplicidade dos particularismos: a Morte e a Ressurreição de Jesus. A verdadeira universalidade constrói-se no compromisso com esse acontecimento que para Paulo é a chave de toda a história.

Em 1998, o filósofo italiano Giorgio Agamben orientou um seminário no Colégio internacional de filosofia, em Paris, onde escolheu comentar a Carta de São Paulo aos Romanos, porque, segundo ele, a hora da plena legibilidade dos escritos de Paulo finalmente chegou. A tese de Agamben é que, para Paulo, Cristo, sendo a finalidade da Lei, também representa o seu fim (término). A consequência é que o tempo messiânico pode deslocar os referentes do mundo: o que até aqui era a norma ou o quadro social deixa de valer só por si. O tempo messiânico é um estado de exceção que permite a transfiguração do mundo, a sua revisão.


Ainda mais recentemente, o filósofo esloveno Slavoj Žižek tem tornado a Paulo. 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A ALAVANCA ECLESIAL - Arquidiocese de Braga / A Voz do Arcebispo



Homilia na eucaristia de Acção de Graças pelas bodas de prata episcopais.

Exmo. e Rev. meu antecessor, Senhor D. Eurico Dias Nogueira,
Estimados irmãos no Episcopado,
Senhor Deão do Cabido e restantes Capitulares,
Caros Sacerdotes, Religiosos e Religiosas, Diáconos e Seminaristas,
Respeitosas autoridades civis, académicas e militares,
Irmãos e Irmãs na fé em Cristo Jesus.

1. Uma herança
Há 25 anos, durante a procissão de entrada para a minha ordenação Episcopal na Cripta do Sameiro, o coro entoava: “Nós somos as pedras vivas do Templo do Senhor!” Passado este tempo, a pergunta emerge: será que os 50 anos do promissor Concilio Vaticano II já produziram o efeito pastoral desejado nestas pedras vivas, que são a Igreja?
O Papa Paulo VI, na homilia de encerramento, reconhecia que este era um projecto “ideal, mas não irreal”[1], daquele Concílio que foi considerado como sendo o maior na participação, o mais rico nas temáticas abordadas e o mais oportuno nas realidades sociais abordadas . E no seu jubileu, o Papa Bento XVI promulga um Ano da Fé para redescobrirmos este tesouro teológico, espiritual e eclesial.[2]
De facto, foi esta nova proposta conciliar que a maioria de nós herdou e fomos incumbidos de concretizar! Aliás, o mesmo desejo de novidade encontrámo-lo nas palavras do profeta Isaías na primeira leitura: “Ergue-te, Jerusalém, e desponta a tua luz sobre a escuridão que envolve a Terra!”
E como referi na Mensagem de Ano Novo, continuo a repetir: é proibido desistir![3] Daí que, neste dia em celebro as minhas bodas de prata episcopais, renove três pontos vitais na pastoral: a caridade, a nova-evangelização e a unidade.

2. Um método
S. Paulo na segunda leitura apresenta-nos o método: a alavanca da caridade. Dizem os dicionários que a alavanca é um objecto que oferece a capacidade de mover grandes cargas com pequenas forças. Com o evento do Átrio dos Gentios, no diálogo com os não-crentes (gentios), confirmamos que a nossa fé até pode transportar montanhas, mas se não estiver alicerçada na caridade, ela desemboca: ou num ateísmo secular ou num fundamentalismo religioso.[4]
Por isso, a alavanca da caridade assume-se como o método mais seguro e viável para fazer erguer a Igreja, qual nova Jerusalém, graças às inúmeras, pequenas e diversificadas forças pentecostais que geram a comunhão na pluralidade: entre sacerdotes e leigos e entre movimentos e estruturas eclesiais ou civis, como sustém n.º 32 da Lumen Gentium.

3. Um desafio
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, diz-nos um célebre poeta lusitano. E os novos tempos exigem-nos uma nova vontade, um novo ardor, uma pastoral repensada e uma nova-evangelização. E porquê? Porque “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, (…) são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo.”[5]
À margem das discussões conceptuais, o Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da “Nova Evangelização”, Card. Rino Fisichella, define-a como “um meio através do qual o Evangelho de sempre é agora anunciado com novo entusiasmo, novas linguagens compreensíveis numa condição cultural diferente e novas metodologias capazes de transmitir o seu sentido profundo que permanece inalterado.”[6]
A liturgia, a caridade, o ecumenismo, a imigração, a catequese de adultos, a cultura e a comunicação social apresentam-se agora como lugares primordiais para esta nova-evangelização. Por coincidência, a partir de hoje inaugura-se o serviço de transmissão diária da eucaristia via internet no site da arquidiocese, para que as pessoas de mobilidade reduzida não estejam inibidas de participar virtualmente nas celebrações da sua orgulhosa Sé Catedral.
Na verdade, e no dizer do Beato João Paulo II, queremos uma Igreja que esteja no mundo, que desfrute das coisas boas do mundo, mas que não seja mundana!

4. Uma condição
 No meio destes desafios, creio que há uma condição imprescindível: “uma sinfonia (sintonia) pastoral, que execute na realidade a bela harmonia das três notas do Deus Uni-Trino”[7], ou seja, a unidade.
A longa oração de Jesus no evangelho de hoje, como síntese da sua missão sacerdotal, assim o confirma: “para que todos sejam um”. A unidade não significa uniformidade ou unicidade, pelo contrário, é a arte do diálogo na diferença. E se Jesus era um só com Deus-Pai, a unidade acaba por ser “o modelo da acção na e pela Igreja”[8].
Como sabem, foi com este intuito que, há 25 anos atrás, escolhi como lema episcopal esta passagem evangélica e me deixei interpelar pela simbologia da romã.
Uma unidade que se traduz numa “unidade geracional com a tradição secular que nos precede, numa unidade espiritual com Cristo, sacerdote eterno, numa unidade pastoral com a Igreja Universal, numa unidade cultural com o mundo que nos circunda, numa unidade fraternal com os leigos, numa unidade integral connosco próprios e, acima de tudo, numa unidade sacerdotal com os membros do presbitério.”[9]
E com razão escreve um dos meus ex-bispos auxiliares: “onde a caridade irradia, aí aflora a beleza que salva, aí se louva o Pai celeste, aí cresce a unidade dos homens.”[10]
A propósito, o gesto do Papa Bento XVI para com o seu desleal mordomo neste Natal comprova que a humildade, o perdão e a caridade abrem mais portas que a própria autoridade. Por conseguinte, só com a alavanca desta caridade poderemos erguer as pedras vivas do templo da unidade e mostrar a diferença da Igreja Católica em relação a outras instituições, tal como o comprova: a “Carta de Louvor” atribuída pelo Conselho de Ministros à Obra Católica Portuguesa das Migrações, e o “Prémio Direitos Humanos” atribuído pela Assembleia da República à Cáritas Portuguesa.
Sem esta alavanca, o Concílio Vaticano II continuará a ser uma bela teoria que prescreveu na história da Igreja.

5. Um agradecimento
Para terminar, no concerto de encerramento do evento Guimarães, Capital Europeia da Cultura, fiquei surpreso ao reparar nas lágrimas inesperadas dos músicos da orquestra perante o aplauso da plateia. A orquestra extinguiu-se ali e as lágrimas daqueles jovens músicos continham certamente um misto de orgulho pelo sucesso alcançado e de incerteza laboral quanto ao futuro.
É verdade que somos vítimas de uma factura económico-social que nos tirou qualidade e dignidade à nossa existência. Mas, como Igreja, resta-nos continuar a apresentar ao mundo político a solução que o Papa Bento XVI apresentou para esta crise, na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz: “promover a vida, favorecendo a criatividade humana para fazer da própria crise uma ocasião de discernimento e de um novo modelo económico”[11], pois só assim as lágrimas da incerteza, da angústia e do desânimo cessarão.
Daí que neste dia também não poderia esquecer-me e pedir que não passem despercebidas as lágrimas de dor de tantos nossos irmãos. Por outro lado, diz-nos S. Gregório Magno que, embora haja inúmeras formas de chorar, “as lágrimas são uma fala estimada” e um mapa pleno de significação.
Por isso, neste dia festivo para a Arquidiocese, as lágrimas que agora derramo no meu interior comunicam a minha profunda gratidão: ao meu professor no episcopado, Sr. D. Eurico Dias Nogueira, e a todos os amigos no episcopado com quem temos procurado promover a vida humana neste Portugal que amamos; aos actuais e ex-Bispos Auxiliares, com os quais repensamos a pastoral arquidiocesana; ao meu presbitério, com quem peleio pela edificação do Reino de Deus; aos jovens seminaristas, em quem coloco o futuro desta Igreja Arquidiocesana; aos religiosos e consagrados, que enriquecem a nossa Igreja com os seus carismas; aos leigos, que no anonimato executam a passagem bíblica do “sal da terra e luz mundo”; aos meus condiscípulos de curso, com quem partilhei o esplendor da juventude; às autoridades civis, com as quais tenho procurado edificar uma sociedade local mais justa e solidária; aos não-crentes, cujas perguntas e críticas fazem repensar e crescer a nossa Igreja; à minha família, a quem devo tudo aquilo que sou; e, por último, agradeço ao culpado disto tudo: Jesus, o arquitecto da unidade!

Por tudo isto,
creio no Deus Criador, em Jesus Salvador e no Espírito Santificador,
bem como na Igreja Católica,
e em todos os homens e mulheres de boa-vontade.

+ Jorge Ortiga, A.P.
3 de Janeiro de 2013, Sé Catedral de Braga.





[1] cf. Paulo VI, Carta Apostólica In Spiritu Sancto.
[2] cf. Bento XVI, Porta Fidei, 5
[3] Cf. D. Jorge Ortiga. Poribido desistir. Mensagem de Ano Novo-2013.
[4] cf. Bento XVI, Deus Caritas est, 16.
[5] Gaudim et Spes, 1.
[6] Rino Fisichella, A Nova Evangelização, 31.
[7] D. Jorge Ortiga, O acorde de Deus. Homilia na peregrinação arquidiocesana à Senhora do Sameiro 2012.
[8] D. Jorge Ortiga, Saudação ao Povo de Deus na ordenação como Bispo Auxiliar de Braga, in Acção Católica, Janeiro-1988, 69-70.
[9] D. Jorge Ortiga, As 7 maravilhas do sacerdócio. Homilia na Missa Crismal de Quinta-Feira Santa 2012.
[10] António Marto, O cristianismo fonte de uma cultura de beleza, in AA.VV., O evangelho da beleza, 27.
[11] Cf. Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz – 2013, 4.